GABRIELA BAZAN PEDRÃO: PROFISSÃO BIBLIOTECÁRIA


Gabriela Bazan Pedrão é Cientista da Informação e cursa atualmente doutorado na UNESP, em Marília. Ela é jovem, inteligente, carismática e uma simpatia! Eu a conheci durante o segundo Bibliocamp Rio, que aconteceu em maio de 2015. Gabriela é criadora do Blog É o último, juro! e do canal no Youtube com o mesmo nome ao qual apresenta suas considerações sobre livros e leituras. Ela também é escritora e tem se saído muito bem nessa carreira. Sobre sua entrevista, gostei muito de saber que um de seus livros favoritos é um dos meus livros favoritos. Fahrenheit 451! Já era apaixonada pelo filme (fiz até um post sobre ele), o certo é que quando sei que mais pessoas gostam da mensagem desse texto, acredito um pouco mais na humanidade. A seção Bibliotecárias (os) Fora de Série é legal por gerar proximidade dos leitores com pessoas que fazem coisas bacanas na Biblioteconomia e a Gabriela tem uma trajetória inspiradora. Muito orgulhosa de tê-la aqui no Caçadores de Bibliotecas.

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1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Eu nasci e cresci em Ribeirão Preto, interior de SP. Minha relação com a leitura sempre foi bastante forte, pois desde pequena sempre vi meus pais terem muito contato com os livros (ambos são professores!). Devo muito dessa paixão também às histórias em quadrinhos, sempre fui encantada pelas aventuras cheias de fatos históricos do Tio Patinhas e Pato Donald, uma mistura de Indiana Jones com desenhos!

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Quando fui para o segundo ano do ensino fundamental, mudei para um colégio da rede Marista e lá comecei minha vida como frequentadora de bibliotecas. O engraçado é que naquela época a biblioteca tinha seu acervo fechado e a bibliotecária ficava em uma mesinha na porta da sala que seria a biblioteca. Os alunos tinham acesso através de uma lista dos títulos e eu achava isso o máximo! Era como um lugar restrito, que só a bibliotecária poderia ir e vir e eu imaginava que lá dentro deveria ser maravilhoso! Algo como ‘O nome da Rosa’ da minha infância, rs. A partir disso comecei a frequentar aquela portinha toda semana e não parei mais. 

3. O que lhe motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

Quando comecei a procurar carreiras na época do vestibular eu estava bem perdida. Estava levando a sério a opção de prestar o curso de História, que sempre foi uma área que me agradou, mas minha mãe me dizia para buscar outras opções também. Ela encontrou no manual do candidato a opção do curso de ‘Ciências da Informação e Documentação’ e achou que tinha tudo a ver comigo. Eu li sobre o curso e realmente me identifiquei, optei por prestar no vestibular da Universidade de São Paulo -USP e passei. Comecei o curso sem saber se estava mesmo na área certa, mas a dúvida durou pouco e até hoje estou por aqui!

4. Que disciplina mais gostava quando era estudante?

Acho que as disciplinas que mais me agradaram estão mais ligadas aos professores que as ministraram, rs. Sempre gostei muito das disciplinas ligadas a parte mais social do curso e as ligadas à memória, que é um tema que trabalho hoje no doutorado!

5. Que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc).

Acho que, apesar de ter começado na universitária e gostar muito, pela minha experiência tenho mais afinidade com a escolar. É um ambiente muito bacana para trabalhar e acho que é onde vemos com mais clareza o impacto que a leitura e os livros podem ter. É gratificante acompanhar a trajetória e a formação do leitor. Acho que uma das melhores coisas da nossa profissão é ver uma criança voltar para biblioteca e pedir outro livro! 

6. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Comecei a graduação em Ciências da Informação e Documentação, na USP de Ribeirão Preto, em 2007. Minha primeira experiência foi em um estágio voluntário no Centro de Memória da Escola de Enfermagem, também na USP. Lá tive a oportunidade de trabalhar com a preservação e higienização de todo o material histórico relacionado a faculdade. Um ano depois, perto da disciplina de estágio obrigatório eu decidi fazer um estágio, novamente voluntário na Biblioteca Central do campus. Na época eu procurava um estágio remunerado, mas não conseguia, a falta de experiência dificultava bastante, até que desisti e optei pelo voluntário. Foi a melhor escolha que fiz durante toda a graduação! Gosto sempre de falar isso porque realmente essa experiência moldou a profissional que sou hoje. Trabalhei como estagiaria junto da bibliotecária Iara Amorim, que até hoje é um exemplo de profissional para mim. Após quatro meses de estágio fui convidada a trabalhar na biblioteca como monitora contratada, aceitei e fiquei por mais cerca de quatro meses.
  • Enquanto trabalhava comode monitora surgiu a oportunidade de uma bolsa de Iniciação Científica com o Professor Eduardo Murguia. A vida acadêmica sempre foi algo que me despertou vontade e quando a oportunidade surgiu não pensei duas vezes: me candidatei à bolsa e quando consegui a vaga decidi sair da biblioteca e começar outra jornada.
  • Após a graduação prestei o processo seletivo de mestrado na UNESP de Marília, fui aprovada e cursei a pós com a orientação do Professor Murguia novamente. Paralelo ao mestrado fiz alguns trabalhos como bibliotecária freelancer. Ajudei na montagem de um acervo em um colégio particular de Ribeirão e quando minha bolsa de mestrado foi finalizada comecei no mesmo local como bibliotecária contratada.
  • Após o mestrado fiquei um ano trabalhando somente como bibliotecária escolar e nesse período surgiu a ideia do blog/canal do youtube ‘É o último, juro!’. Foi uma fase em que eu sentia que precisava produzir algo, fazer alguma coisa diferente e, vendo minha estante de livros acumulada, decidi falar sobre literatura na internet. Foi um meio de me incentivar a ler mais e tentar motivar mais pessoas a fazerem o mesmo.
  • Depois de alguns meses com o canal e o blog, decidi tirar outro projeto da gaveta: o de escrever ficção. Sempre gostei muito de escrever e decidi que era o momento de pegar um pouco das inspirações que tinha com minhas leituras e produzir minhas próprias histórias.
  • Escrevi um livro que foi finalista do concurso ‘A Fantasy quer o seu mundo’ que foi organizado pela Editora LeYa com seu selo de literatura fantastica, a Fantasy. Após esse concurso não parei mais, escrevi mais alguns contos e um foi finalista no concurso ‘Brasil em prosa’ organizado pela Amazon Brasil em parceria com a Samsung. Esse é um dos meus projetos que eu mais me dedico, escrever é um prazer para mim e acredito que através da escrita podemos fazer a diferença. Minhas histórias são sempre focadas no universo da fantasia e procuro sempre escrever sobre algo relacionado à minha profissão e gostos, então sempre terá um personagem acadêmico, um livro misterioso, uma biblioteca fantástica. Eu acredito que esse é um ótimo meio de divulgar e mostrar o quanto a profissão, os livros e as bibliotecas são incríveis. 
Voltando para a área acadêmica, ingressei no doutorado esse ano (2015), novamente na UNESP em Marília e estou com um projeto e estudos em andamento.

7. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Meu conselho é que quem hoje deseja começar um curso de Biblioteconomia ou CI já deve ter em mente que a profissão é ampla e que o profissional não deve se restringir. Aconselho a quem deseja começar agora que já estude e coloque em seu dia a dia profissional as mídias sociais, ferramentas da internet, procure saber como trabalhar com ebooks e faça o máximo para integrar o mundo atual à profissão. Nada de ficar parado no tempo ou fazer ‘apenas o básico’ precisamos diferenciar e modernizar!

8. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Como minha graduação foi em ‘Ciências da Informação e Documentação’ acho que já vim desde o começo com uma visão mais ampla, ao contrário de quem começa ‘Biblioteconomia’ que já tem um nome bastante sugestivo. Durante todo o período da faculdade escutamos que a profissão vai bem além dos livros e bibliotecas, então creio que isso não foi um ‘mito’ para mim. Mas se eu precisasse citar um momento onde eu vivi essa realidade de ‘isso é muito maior’, acho que foi quando comecei a trabalhar na biblioteca do campus. Ali vivendo a rotina da biblioteca universitária eu percebi como existem muito mais coisas envolvidas na profissão.

9. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta.

Acho que sim, principalmente para bibliotecários de bibliotecas públicas e escolares. Acho que essa é a ‘vitrine’, pois como você indica um livro se não gosta de ler? É algo como um dentista que tem dentes descuidados. Eu acredito que para você convencer uma pessoa de que aquilo é importante, é bacana e tem o potencial de melhorar sua vida, você também tem que acreditar nisso. Acho muito importante que bibliotecários de instituições públicas e escolares apreciem a leitura porque, para mim, esses são alguns dos locais onde a leitura mais pode ser incentivada, então esse profissional tem que entender daquilo que está fazendo e falando.

10. Qual a biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?

Eu tive a oportunidade de conhecer algumas bibliotecas maravilhosas. As que mais me marcaram foram com certeza a Biblioteca do Convento de Mafra, em Portugal e a Biblioteca Joanina, na Faculdade de Coimbra, também em Portugal. No Brasil com certeza o Real Gabinete Português de leitura, no Rio. Acho que essas foram as que mais me tocaram. No futuro sonho em conhecer a Biblioteca do Trinity College em Dublin, a Biblioteca do Monastério de Admont, na Áustria, a Biblioteca da Abadia de Saint Gall na Suíça, a Biblioteca do Mosteiro de Wibligen na Alemanha e a Biblioteca Nacional de Praga, na República Checa! Várias, rs.

11. Dentre os tantos livros que você já leu, cite um e recomende.

Recomendo Fahrenheit 451. Acho que todos devem ler esse livro. É uma história maravilhosa, quando li me fez pensar sobre vários aspectos da vida que levamos atualmente, superficial e cheia de futilidades. É um tapa bem dado e uma lição para sairmos do piloto automático e da multidão que vai nos levando sem percebermos. Recomendo porque é um livro que, além de falar sobre livros, fala sobre o poder deles e da leitura e como isso pode influenciar e mudar a vida de uma pessoa. 

12. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

Eu vejo nossa classe atualmente muito estagnada. Muitos falam sobre mudanças, sobre ‘reinventar a profissão’, sobre modernizar, mas poucos realmente o fazem. Outro problema que vejo é que somos um grupo desunido no Brasil. As opiniões diversas causam guerras de egos, rixas e confusões, na maioria das vezes sem sentido. Tenho a impressão de que o bibliotecário em geral é muito orgulhoso e resistente, e qualquer fala contra uma opinião pessoal acarreta uma guerra. É complicado trabalhar em um meio assim, onde as pessoas querem ouvir suas próprias opiniões reforçadas pelo outro. Sei que muitos não vão gostar de ler isso (é a prova do que acabei de dizer, rs) e claro que estou falando de um modo geral. Sei muito bem que existem muitos profissionais que não se encaixam nesse perfil. Mas, na minha opinião, ainda é um traço presente na nossa profissão.

13. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade? 

Infelizmente quase nula. Em Ribeirão Preto temos uma biblioteca pública quase inexistente dentro do prédio da prefeitura. A biblioteca mais utilizada e considerada pública, a Altino Arantes, não é mantida pela prefeitura, é mantida por uma instituição particular e não executa projetos de leitura e incentivo na cidade. Sei que o acervo é relativamente bom, mas a biblioteca fica ‘apagada’, não tem mídias sociais, site e nenhum tipo de contato, a não ser o telefone. Tentei um contato para saber se o responsável pela biblioteca era um profissional da área, mas não consegui e até onde eu sei não é. A cidade tem outras bibliotecas abertas ao público, mas que também não são mantidas pela prefeitura. A Biblioteca Padre Euclides é outro exemplo. Essa tem um pouco mais de visibilidade na internet, com página no Facebook e um site, eles organizam alguns workshops e atividades na biblioteca, mas ainda acho que é preciso mais.

14. Há algum bibliotecário (a) que você considera fora de série? 

Alguns na verdade. Acho que o primeiro que posso citar aqui é o Moreno Barros, que foi quem me ‘descobriu’ e através dele eu descobri vários outros bibliotecários fora de série. Acho que posso dizer sem ser considerada puxa saco que a Soraia Magalhães é sem dúvida fora de série e meu sonho é ser uma Indiana Jones das bibliotecas mundo afora como ela! Posso citar também o William Okubo e o Tiago Murakami que fazem trabalhos fantásticos, aquela coisa que eu disse antes sobre falar sobre mudanças e de fato fazer acontecer. Claro não posso deixar de falar da Iara Amorim, uma excelente profissional e minha primeira ‘professora do mundo real’, devo muito do que sou hoje a ela.

15. Do que mais gosta na sua profissão? 

O poder que temos de causar uma mudança. Acho incrível pensar que podemos ser a ponte entre as pessoas e um mundo de informação. 

16. Fique a vontade para fazer seus comentários finais.

Acho que não tenho mais nada a acrescentar. Gostaria de agradecer a oportunidade de estar aqui e parabenizar pelo trabalho incrível que você faz. Acho que precisamos todos sair do lugar comum e conhecer outras bibliotecas e outros bibliotecários!

Foto: Acervo pessoal de Gabriela Bazan Padrão
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