JORGE DO PRADO: PROFISSÃO BIBLIOTECÁRIO


O tema que escolhi para tratar na Revista Biblioo de novembro foi bibliotecas bonitas brasileiras e a proposta combinou com a imagem enviada pelo Bibliotecário Jorge do Prado para ilustrar sua participação na seção Bibliotecários Fora de Série. Mas não foi por esse motivo que o convidei e sim, por sua dedicação à biblioteconomia e os estudos que vem realizando. Foi no Bibliocamp Sampa 2013, que tive a oportunidade de vê-lo tratar sobre articulação em mídias sociais e sua relevância em prol de diversos públicos com informação inovada ou reinventada. Um trabalho muito interessante...além de tudo, Jorge do Prado carrega consigo uma enorme simpatia. Na imagem acima, ele posa em uma das mais bonitas bibliotecas do Brasil - Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro.
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1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Nasci em Florianópolis, mas fui criado em Rio Negrinho, uma cidade ao norte de Santa Catarina. Antes de ter uma relação bastante forte com a leitura, eu tinha com os estudos. Desde pequeno gostei de estudar, principalmente Língua Portuguesa (e depois os idiomas). Como ninguém na minha família era leitor, meu envolvimento mais íntimo com a leitura veio a partir dos professores que tive.

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Primeira biblioteca que tive contato, durante os recreios, de forma mais independente (sem professor guiando), foi a da própria escola onde fiz todo o ensino fundamental. Depois, com bastante relutância da minha mãe, fiz cadastro na Biblioteca Pública de Rio Negrinho. Meu envolvimento com bibliotecas e livros não teve influência familiar.

3. O que lhe motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

Prestei dez vestibulares para Letras (intercalando entre Língua Portuguesa e Inglesa) e passei em todos. Entretanto, durante uma feira de profissões promovida pela Universidade Federal do Paraná, fui apresentado a Biblioteconomia numa conversa informal com meu primeiro chefe. Ele disse que não me via professor, que eu não tinha jeito e que eu deveria tentar outra coisa. À época, eu trabalhava num colégio particular, como assistente administrativo, mas locado na biblioteca. Foi uma experiência e tanto e muita coisa ainda levo daquele lugar. Tenho muito ainda a agradecer ao Adriano Sales Coelho. Passei para Biblioteconomia na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), uma ótima universidade, com professores inigualáveis. Se me arrependo de deixar as Letras? Nem um pouco! Mas ainda pretendo ensinar, só que na Biblioteconomia.

4. Que disciplina mais gostava quando era estudante?

O currículo oferecido pela UDESC é muito amplo e há uma preocupação em sempre mantê-lo atualizado, por isso, é um pouco difícil dizer somente uma disciplina. Prefiro ficar com o resultado da multidisciplinaridade que o curso proporcionou.

5. Que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc).

Tive experiência em escolar, pública, especializada e universitária, mas não consigo me ver atuando fora de uma biblioteca universitária ou pública. Especializada, só se for na área tecnológica.

6. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Comecei numa biblioteca de escola particular de Rio Negrinho, mas ainda sem ter contato com a Biblioteconomia. Fizemos o que era ao nosso alcance e funcionava bem. Chegamos até a realizar uma feira literária com Luis Fernando Verissimo, depois, quando vim morar em Florianópolis para estudar na UDESC, coloquei como meta aproveitar todos os tipos de bolsas oferecidas pela instituição: passei por bolsista de apoio discente, monitor de disciplina, bolsista na Biblioteca Pública do Estado de SC, arquivo da Pró-Reitoria de Ensino… tudo isso com envolvimento da UDESC. Mudava a fase, eu mudava de bolsa. Quanto cheguei na sexta fase e, portanto, sexta bolsa, passei para Auxiliar de Biblioteca na Faculdade de Tecnologia Senac Florianópolis. Hoje, continuo a trabalhar na instituição, mas como Bibliotecário. Atualmente também sou Gerente de Mídias Sociais da FEBAB e professor em curso à distância também pela FEBAB.

7. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Goste de pessoas. É para elas que você gerencia uma biblioteca e é só com elas que tudo funciona. Ser curioso também é válido, pois quando você descobre novidades, você se inspira.

8. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Acho que foi no momento em que escrevi meu TCC. Meu trabalho foi apresentar a narrativa transmídia como estratégia de marketing em bibliotecas. Foi quando comecei a me envolver bastante com mídias sociais, ingressei na pós em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais e entrei no mestrado com projeto voltado a mídias. Esta é a área que curto e que acredito. Quando falo às pessoas que sou bibliotecário e trabalho com isso, é notável o “espanto”.

9. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta.

Uma de minhas professoras da graduação uma vez disse: “Ninguém tem o hábito pela leitura. Se tem o hábito, então não curte. Hábito eu tenho é de tomar banho antes de dormir, de escovar os dentes; portanto, faço porque é necessário. Pela leitura eu tenho é prazer”. Para quem quer seguir a carreira e tem o prazer pela leitura, tudo se torna mais fácil. Mas não sejamos hipócritas: não é frustrante chegar para um bibliotecário, por exemplo, e pedir uma sugestão de um livro semelhante à escrita de Coetzee e ele sequer saber que este escritor existe? Sabemos que é impossível ler ou conhecer de todos, mas acho que é fundamental o bibliotecário ter noção da literatura da área da unidade de informação em que atua, ao menos.

10. Qual a biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?

Conheci em 2009 a biblioteca particular de Cleber Teixeira, aqui em Florianópolis. Cleber foi o único brasileiro a ter prensas ao estilo de Gutenberg, imprimiu importantes títulos nacionais e internacionais, além de ser colega de ilustres escritores. Tive uma conversa fabulosa com ele, conheci sua biblioteca, vi as máquinas funcionando… foi simplesmente fantástico! Tive acesso a obras únicas! Cleber faleceu em junho deste ano e teve suas cinzas espalhadas pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Das bibliotecas que eu tinha bastante vontade de conhecer, o Real Gabinete Português de Leitura e a Brasiliana de Mindlin eu já consegui; agora, penso muito na Library of Congress.

11. Dentre os tantos livros que você já leu, cite um e recomende.

Sou muito fã das obras de José Saramago e deixo como sugestão As intermitências da morte, meu livro predileto. Uma reflexão muito inteligente sobre a vida e o nosso medo da morte.

12. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

Penso que é um momento de mudanças em vários sentidos. Temos aquele discurso de transdisciplinaridade, multidisciplinaridade, novos ambientes de atuação… mas será que é mesmo? E se sim, estamos realmente preparados? São respostas que ficam “em cima do muro” a alguns questionamentos. O atual contexto do livro e das tecnologias também tem surtido efeito em nossa profissão e bibliotecário que não acompanha estas discussões, ficará para trás logo, logo.

13. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade?

Há um “inconveniente” geográfico em Florianópolis de que todos acham que a cidade é só a ilha, mas há um pedaço no continente e é nele que está a biblioteca. Percebo que ela tem uma agenda cultural bastante ativa, mas se continuar assim poderá cair na rotina, é preciso reinventar, inovar, tentar atuar com todo o público que ela pode atender. Já na ilha, tive a oportunidade de estagiar na Biblioteca Pública do Estado e foi uma experiência um pouco frustrante, pois ela é um cenário exato daquela biblioteca tradicional, estagnada no tempo e que faz mais do mesmo. Por outro lado, ainda há esperança! Comandado pelo Prof. Francisco das Chagas, da UFSC, há um movimento pelas bibliotecas públicas em Florianópolis. Tudo está sendo discutido via Facebook, de forma democrática, qualquer um pode acompanhar.


14. Há alguma bibliotecária ou bibliotecário que você considera fora de série?

Apesar de não ser bibliotecária por formação, considero a atuação da Tânia Piacentini, da Biblioteca Comunitária Barca dos Livros, algo fora de série. Ela batalha muito por aquela biblioteca e serve como exemplo a muitos profissionais formados.

15. Do que mais gosta na sua profissão?

De que posso saber um pouco sobre tudo, se eu gosto de determinada área, posso me especializar nela e trazer novidades para a biblioteca. 

16. Fique a vontade para fazer seus comentários finais.

Soraia, foi um enorme prazer conhecê-la no Bibliocamp São Paulo! Para mim você é uma bibliotecária fora de série e foi uma honra receber o convite para esta entrevista. Para quem quiser trocar ideias, conversar, deixo meu twitter: @jorgedoprado. Forte abraço!

Foto: acervo pessoal de Jorge do Prado
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