FABÍOLA BEZERRA - PROFISSÃO: BIBLIOTECÁRIA


Conhecer bons profissionais da área biblioteconômica é realmente motivador e nesse sentido as redes sociais oferecem oportunidades de aproximação e interação entre grupos. Foi por meio desse canal, e, mais precisamente do Mural Interativo do Bibliotecário que conheci Fabíola Bezerra, que atua como Bibliotecária da Universidade Federal do Ceará. O Mural Interativo do Bibliotecário, criado por ela, consiste em uma pagina ou fan page do Facebook onde são postadas informações relevantes, mas com uma dinamização realizada com grande sagacidade. Fabíola criou um esquema de entrevistas chamado 'Encontro Marcado' onde quinzenalmente dá "voz" a profissionais da área biblioteconômica e afins para apresentação de suas ações e ideias. A primeira etapa desse trabalho rendeu um e-book ao que tive a honra de participar. Fabíola é um exemplo de inquietude e perseverança e com certeza uma Bibliotecária Fora de Série! Fabíola mais que uma colega, se transformou em uma amiga. Que tal conhecê-la um pouco mais por meio desta entrevista?
............. 

1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Sou cearense, natural de Fortaleza, local onde vivi até terminar o curso de Biblioteconomia, depois fui morar em Porto Velho, Rondônia, lá vivi por quase 8 anos trabalhando como Bibliotecária. Em 1992 voltei para Fortaleza, mas me ausentei novamente quando estive morando em Portugal realizando estudos de mestrado/doutorado. Tenho boas lembranças do meu tempo de infância no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, escola que estudei por 12 anos, lá tive a minha primeira experiência com a leitura e com as bibliotecas. Existiam na escola três bibliotecas: uma para o jardim da infância, outra para as crianças intermediárias e a outra para os “grandes”. Lembro que existia uma determinada coleção de livros na biblioteca “intermediária” que me fascinavam, eram coloridos, com desenhos chamativos e prendiam minha atenção, passava horas na biblioteca sentada no chão lendo aqueles livrinhos coloridos. Quando passei para a biblioteca dos “grandes” a coisa ficou menos colorida, recordo perfeitamente que a biblioteca era o local aonde eram enviados os alunos expulsos de sala, tipo uma sala de castigo, embora muitas vezes, também foi palco de muitos trabalhos em grupo. A biblioteca possuía um bom acervo para a época e atendia as nossas necessidades de “pesquisa”, as Enciclopédias Barsa e Mirador eram sagradas e representavam status. Como a escola era católica e a congregação era franciscana, todo ano em outubro, mês de São Francisco, havia gincana intercalasses, e geralmente tinha pesquisa sobre uma faceta da vida do Santo, a biblioteca possuía um vasto e rico acervo sobre São Francisco e era para lá que eu e minhas amigas corríamos para resolver as tarefas impostas pela gincana.

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Como falei anteriormente na biblioteca do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Fortaleza. Com o tempo, meu pai foi formando em casa uma biblioteca, tínhamos muitos livros de literatura e muitos paradidáticos, e algumas coleções que deram suporte aos meus estudos e de meus irmãos. O meu sonho era que meu pai comprasse a Enciclopédia Mirador, mas na época era caríssima e nunca houve a hipótese de adquirir.

3. O que lhe motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

Na verdade, foi a Biblioteconomia quem me escolheu! No dia em que fui me inscrever para o vestibular não tinha a menor ideia de qual curso fazer, estava na fila dentro do campus universitário, esperando para fazer minha inscrição, já perto de chegar a minha vez, peguei três papéis, um escrevi MEDICINA, no outro BIBLIOTECONOMIA e um terceiro curso que não me recordo ao certo. Rasguei um a um, enrolei e pedi a uma rapaz que estava na minha frente na fila, para escolher e disse: “tire aqui a minha sorte por favor” ele sorriu e tirou, eu agradeci e saiu a opção Biblioteconomia. O primeiro dia do vestibular foi um domingo, na noite anterior, tinha saído com meus irmãos para uma festa e chegamos a casa por volta das 5:00h da manhã, minha mãe me acordou às 6:00h para tomar café e ir fazer a prova, disse a ela que não tinha a menor condição de fazer a prova, que estava com muito sono, ela disse algo do tipo: “nem pense nisso, seu pai gastou dinheiro com a inscrição e agora você vai fazer a prova!” Depois do café, meu pai foi me deixar, e perguntou aonde eu iria fazer a prova, disse que seria no Campus Universitário do Pici, pegou o carro e me deixou no campus, desejou boa prova e deu um trocado para que eu tomasse um lanche e pegasse o ônibus para casa. Depois de pegar uma fila enorme e adentrar no campus, faltavam 15 min. para fechar os portões, peguei o meu cartão e perguntei a um fiscal onde ficava aquela sala, ele então respondeu: “sua prova é no Campus Universitário do Benfica, pegue um taxi senão vai perder a prova” eu olhei para ele sem acreditar e lembrei que o dinheiro que tinha na bolsa não era suficiente para pagar um taxi, desci a escadaria para voltar para casa, quando avistei um carro da Rádio Verdes Mares, cheguei para o repórter que estava entrevistando alguns candidatos e falei: “moço, minha prova é no Campus do Benfica, tenho 15 min para chegar até lá , não tenho dinheiro para o taxi e preciso de uma carona”, ele sorriu e disse assim: “tudo bem nós vamos lhe dar uma carona, mas antes você vai dar uma entrevista” eu topei e ele juntou eu e mais uns dois candidatos e fez uma pequena reportagem, depois me disse assim: “a verdinha vai lhe dar sorte!” e de fato deu. Hoje quase 30 anos depois me sinto totalmente realizada com a minha escolha profissional.

4. Que disciplina mais gostava quando era estudante?

Foram várias, pois tive grandes professoras! O currículo da minha época (1982/1985) era muito direcionado para disciplinas técnicas, tive a sorte de aprender “Classificação I e II” com a professora Aracy Fiúza (já falecida) que ensinou classificação numa perspectiva de construção do conhecimento. A querida Cleide Ancilon, professora de Catalogação I e II, era uma sumidade no assunto e suas aulas eram superinteressantes, ela possuía um arsenal de exemplos verídicos para cada nova regra do AACR, e tudo ficava muito simples de aprender. Em Planejamento de Bibliotecas comecei a conhecer sobre gestão, a professora Fernandina Lino era meio mãe de todas nós e foi uma disciplina na qual me identifiquei muito, mas foi na disciplina Introdução a Biblioteconomia que comecei a vislumbrar novas perspectivas para o meu futuro profissional, a professora na altura era Fátima Portela, recém-chegada no Departamento de Biblioteconomia e cheia de ideias renovadas, penso que foi a partir daí que decidi que queria uma Biblioteconomia diferente para mim e trilhei meu percurso profissional nesse sentido. 

5. Que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc).

Dentre as tipologias elencadas, só não trabalhei em biblioteca escolar, ironicamente era o tipo de biblioteca que desejei trabalhar quando ainda estava na faculdade e, de forma ingênua, acreditava que ao fim do curso, tínhamos que passar por uma espécie de residência e se especializar em um tipo de biblioteca. Trabalhei como estagiária, já no finalzinho do curso, em uma biblioteca especializada em Ciências Ambientais e Recursos Hídricos e outras duas de Recursos Minerais, essas experiências me ajudaram a entender que o bibliotecário deve chegar junto do seu usuário, procurando conhecer qual a necessidade real de informação de cada usuário. Em cada uma dessas três bibliotecas, tive vontade de me especializar no assunto da biblioteca, pois a especificidade de cada uma requer do bibliotecário conhecimento que vai além da Biblioteconomia. Na biblioteca pública foi o local que melhor acolheu o meu lado lúdico e criativo, não existiam barreiras para a criatividade, à biblioteca pública faculta um contato maior com a comunidade e uma construção de laços. Assumi a direção da Biblioteca Pública Estadual Dr. José Pontes Pinto, em Porto Velho, Rondônia, com menos de um ano de formada e foi um grande desafio e aprendizado. Aprendi dentre muitas coisas a valorizar e respeitar a minha profissão, ao assumir a direção da biblioteca, visitei todas as casas no entorno da biblioteca me apresentando e deixando que as pessoas conhecessem uma biblioteca mais humana e mais popular, uma biblioteca que pudesse afinal fazer parte da vida de cada pessoa da comunidade. Hoje, quando acontece de eu tomar conhecimento de uma postura não muito simpática de bibliotecário x ou y de uma biblioteca pública, fico extremamente aborrecida de perceber o quanto essas pessoas fazem mal a nossa profissão. Trabalho há 25 anos em biblioteca universitária, gosto imensamente do ambiente, dos serviços, da pesquisa, do contato com o usuário, das inovações tecnológicas que passam primeiro pelo ambiente das bibliotecas universitárias. Seguramente, todas as experiências anteriores que vivi como bibliotecária, me ajudaram a ser a profissional que hoje sou, pois em cada uma das experiências vividas tenho convicção que dei o meu melhor. 

6. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Já relatei um pouco na questão anterior, mas vou ilustrar com mais alguns detalhes. Terminei a faculdade em dezembro de 85, dia 9 de março de 1986 fui para Porto Velho, Rondônia para ser bibliotecária do CEAG-RO hoje SEBRAE, e dia 12 de março (dia do Bibliotecário) assinei meu primeiro contrato como bibliotecária, lá passei apenas dois meses. Em seguida fui contratada pelo Governo do Estado de Rondônia e assumi a direção da Biblioteca Pública Estadual Dr. José Pontes Pinto, trabalhei um ano e meio mais ou menos na biblioteca, por causa do trabalho desenvolvido, outros convites surgiram. Fui convidada para coordenar o Programa Estadual de Bibliotecas Públicas, antes de assumir o cargo, recebi outro convite, sendo este da Procuradoria Geral do Estado de Rondônia para gerenciar a biblioteca do órgão, a proposta apresentava maiores vantagens econômicas e optei por esse convite. Depois fiz concurso de provas e título para Universidade Federal de Rondônia e lá trabalhei até outubro de 1992. Nesse mesmo ano passei em outro concurso público, o do Tribunal de Justiça de Rondônia, mas acabei fazendo a opção pela transferência para a Universidade Federal do Ceará, aonde trabalho até hoje.

7. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Que nunca deixe morrer a chama dos primeiros anos como profissional, é imprescindível manter-se apaixonado pela profissão, ferramenta sine qua non para uma boa atuação, e que nunca deixe de ousar, a Biblioteconomia nos permite sair dos padrões convencionais, esqueça a mesmice e use a criatividade a seu favor.

8. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Por natureza sou uma pessoa criativa e meu olhar para a minha profissão sempre foi direcionado nessa perspectiva. Desde o começo da minha atuação profissional, tive a sensibilidade de direcionar minhas ações para uma relação harmoniosa e colaborativa com as comunidades em que trabalhei. Nunca encarei a minha Biblioteconomia como uma profissão tecnicista, se assim fosse já teria desisto dela há muito tempo, gosto de inovar, de renovar e isso possibilita que eu me mantenha cheia de vivacidade profissional mesmo depois de 29 anos de formada. 

9. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta.

Parece paradoxal eu tentar responder essa pergunta, uma vez que a minha própria escolha para a Biblioteconomia foi totalmente na contramão dessa pergunta, mas acredito que a falta de afinidade com a leitura seja um agravante para quem escolhe ser bibliotecário.


10. Qual a biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?


Existem duas bibliotecas que frequentei quando estive a viver em Portugal e que gosto muito: a Biblioteca da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, pela estrutura grandiosa e condições de acolhimento e a Biblioteca Pública Almeida Garrett, na cidade do Porto, onde desenvolvi minha pesquisa de doutorado e onde deixei grandes amigas, a biblioteca é linda, possui uma localização privilegiada, em um dos locais mais bonitos da cidade do Porto, os Jardins do Palácio de Cristal. Tenho muita vontade de conhecer as bibliotecas públicas dos países nórdicos. 

11. Dentre os livros que você já leu, cite um e recomende.

Difícil pergunta, foram tantos, antes muito mais do que agora, uma vez que nos últimos tempos minhas leituras têm sido técnicas, mas tem um livro que gosto bastante, cujo título é “O Poder do fluxo” de Charle Belitz & Meg Lundstrom, sou uma pessoa com muita sensibilidade as coisas que acontecem a minha volta, o livro me ajudou a perceber o que muitas pessoas chamam de coincidências, e que os autores chamam de sincronicidade com as forças do universo.

12. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

Penso que estamos vivendo uma “nova onda” provocada com o avanço das tecnologias e que tem deixado à profissão muito mais instigante e sedutora. A relação estreita com as tecnologias tem lançado no mercado, profissionais com uma visão muito mais estendida sobre diferentes formas de acesso a informação e ao conhecimento, mas, em alguns casos, percebo na mesma proporção, um distanciamento de alguns novos profissionais com a essência da Biblioteconomia voltada para as pessoas e isso me preocupa. 

13. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade?

Essa pergunta é delicada, já vivi situações menos simpáticas que me deixaram desencantadas com a relação usuário x biblioteca. Como acredito que toda biblioteca será o que for o seu bibliotecário, e como já vivi uma experiência como gestora de uma biblioteca pública, tenho dificuldade de compreender a passividade em que a biblioteca se relaciona com a comunidade.

14. Há algum bibliotecário (a) que você considera fora de série?

Nesse caso, prefiro falar de algumas que estão aqui próximos a mim e que acompanho a caminhada desde os tempos da faculdade, a amiga Malvinier Macêdo que faz um trabalho maravilho do sertão do Ceará, em meio à caatinga, levando qualidade de vida para o povo sofrido do sertão. A outra é Islânia Castro que trabalha comigo na Universidade Federal do Ceará, além de uma excelente gestora desenvolve um belíssimo trabalho como voluntária em uma biblioteca comunitária, para uma comunidade carente na periferia de Fortaleza. 

15. Do que mais gosta na sua profissão?

Gosto de pensar que por meio da minha profissão posso melhorar a vida das pessoas à medida que facilito o acesso a informação, somente o conhecimento será capaz de mudar a vida das pessoas e dar qualidade de vida para todos.

16. Fique a vontade para fazer seus comentários finais.

A Internet é maravilhosa à medida que aproxima as pessoas e torna o mundo tão pequeno que cabe dentro de uma caixinha de fósforo, e foi por meio do Mural Interativo do Bibliotecário, Fan Page que administro dentro do Facebook, que tive a oportunidade de conhecer a Soraia Magalhães e acompanhar seu belíssimo trabalho no blog Caçadores de Bibliotecas. Recentemente tive a oportunidade de conhecer Soraia pessoalmente e o mais incrível que descobri é que nós duas temos muitas semelhanças e que somos duas apaixonadas pela nossa profissão. Obrigada Soraia pela oportunidade de participar de uma forma tão agradável do blog. Sucesso na sua caminhada.


Foto: Extraída do Facebook de Fabíola Bezerra
Proxima
« Anterior
Anterior
Proxima »
Obrigado pelo seu comentário