MAGALHÃES DA GUITARRA - UMA PARTE DA MÚSICA AMAZONENSE


O que escrever sobre um homem que com pouco mais de vinte anos de idade (pai de dois filhos na época) opta por largar o emprego que não lhe dava prazer para se dedicar ao que acreditava ser sua verdadeiramente vocação? 

Magalhães da Guitarra fez isso. Nascido no município de Carauari e caçula de uma família que, como tantas outras, chegavam à Manaus em busca de oportunidades, quando adulto foi vendedor em uma loja de aviamento (J.Leite), mas abandonou o emprego para viver apenas da música. 

Manaus, assim como as outras capitais do país vivia transformações. Na música, era o tempo de Bossa Nova, Tropicalismo, Jovem Guarda, grande festivais e no ambiente local surgiam conjuntos musicais formados por jovens que buscavam acompanhar as tendências tomando por base o que acontecia nos grandes centros.

Magalhães tocou entre os anos 60, 70 e 80 em conjuntos musicais, como o Quinteto Exportação e mais tarde foi líder do Som Imaginário.

Magalhães da Guitarra era meu pai e viveu a música com uma intensidade surpreendente. É válido destacar que Iolanda Pereira, minha mãe era crooner e ambos sustentaram seus sete filhos por meio da música.


Em final dos anos 80, papai resolveu seguir carreira solo no período em que a Lambada caia no gosto do Brasil e até de outros países. Foram mais de quarenta anos de inenarráveis experiências no meio musical manauara e de outras cidades brasileiras, tendo chegado a se apresentar na Colômbia. Autodidata, tocava violão, contra baixo, guitarra, cavaquinho e teclado, bem como deixou um legado de composições em diferentes estilos musicais. Gravou três discos em vinil e seis CDS.

Infelizmente sofreu a falta de incentivo por parte do poder público voltado para a música local, principalmente para atender aos contemporâneos de sua geração. Não posso deixar de pensar que a classe artística amazonense deveria dispor de um espaço de memória. Meu pai deixou uma obra e como ele,  há outros que tem seu marco de importância na cultura regional. Seria relevante a criação de um espaço museológico para a história da música amazonense.

Meu pai partiu no dia 17 de março de 2014. Se optei por fazer esse registro num blog que trata de bibliotecas e espaços de cultura foi apenas por fazer valer o enunciado que diz "mais que caçadores de bibliotecas, sejamos caçadores de cultura." Havia muito da cultura regional em seu trabalho e creio que o artista Magalhães da Guitarra merece bem mais que esse registro.

Magalhães da Guitarra nos últimos anos dava aulas de violão e teclado em sua casa. Um de seus últimos trabalhos foi a participação ao lado de Rosivaldo Cordeiro no álbum Guitarreiro, com a música Ternura.

Voltando a pergunta de partida: o que dizer sobre um homem que decidiu largar o emprego que não lhe dava prazer para viver apenas da música?..que seguiu seu coração e foi em busca de seus sonhos.


Para os meus irmãos Ed Wilson, Lico Magalhães, Neto Pompilho, Iara, Ioná, Débora, Klinger, Érique e Naiara.

Fotos: Acervo pessoal de Soraia Magalhães
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7 comentários

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divas
admin
19 de março de 2014 19:00 ×

Linda homenagem prima Soraia Magalhães! Sempre lembrarei dele com muito carinho. Saudades eternas Tio Magalhães!!!

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Anônimo
admin
19 de março de 2014 23:03 ×

Poucos, minha amiga, tem essa coragem. É uma troca particularmente injusta quando pensamos na falta de incentivos aos artistas locais. Tenho certeza, entretanto, que Magalhães da Guitarra foi feliz em viver seus sonhos. Pessoas como ele jamais se dobrariam à rotina diária de um trabalho com hora marcada. A noite era o seu mundo e, no seu tempo, ele foi o astro. Nossos sentimentos por sua perda, Soraia. Abraços de Iva e família.

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Peter Bosco Janzon
admin
20 de março de 2014 08:06 ×

Vivir sus sueños, seguir su camino, eso es lo que hacía tu querido padre Soraia.
Poca gente tiene esa valentía !! Me quito el sombrero !!
R I P

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Anônimo
admin
21 de março de 2014 16:15 ×

E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã


Um trecho de uma das músicas que não ouviremos sem nos lembrar do nosso pai. Sei que a saudade dele tá doendo em nós. Numa dor sem tamanho, numa dor que não se consegue descrever. Eu o amei sem medida, sem ressentimento, num amor tão puro, que só filho e pai consegue entender. Peço perdão por não ter conseguido ficar de corpo presente até o fim. Minha dor foi maior que a capacidade de suportar... Sei que cada um dos meus irmãos também o amou e continuará amando.Que Deus te abençoe, meu pai querido. Iara

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26 de março de 2014 13:02 ×

As pessoas boas jamais morrem, apenas nos esperam em outro plano.
Sorria, pois para ele não existe mais sofrimento.

Forte Abraço!

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26 de março de 2014 13:42 ×

Mana querida,
Eu nem tinha condições de responder essa sua linda mensagem...
O que posso te dizer que é a música que ele tanto gostava é precisa...Ele sabia!

" A saudade dele está doendo em mim..."

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Pool Plays
admin
28 de março de 2014 21:19 ×

Grande Professor! Eu fui um desses alunos que estudou recentemente em sua casa! Comecei meus estudos com ele em dezembro de 2013, e nesse pouco tempo aprendi muita coisa com suas aulas, ainda lembro de que toda semana ia andando até sua casa. Hoje fiquei sabendo que ele se foi...e agradeço por tudo que ele me ensinou. Poucas semanas atrás fui até a casa de meu avô e fiquei sabendo que eles já tinham tocado juntos (como esse mundo é pequeno, não?) e tirei uma foto com meu avô segurando 2 discos em vinil dele, infelizmente não tive a oportunidade de mostrar a foto a ele, descanse em paz professor.

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