MÁRCIA RODRIGUES (MARCINHA): PROFISSÃO BIBLIOTECÁRIA


Fora de Série, o trabalho dela é fora de série! Foi com essa impressão que deixei Ipojuca, Pernambuco ao conhecer a Biblioteca Pública Municipal Joaquim Nabuco, na qual atua a Bibliotecária Márcia Rodrigues (Marcinha), tendo em vista que o espaço é um dos poucos (que conheci) em termos de bibliotecas públicas no interior do Brasil, que busca atender aos preceitos do que propõe o Manifesto da UNESCO para bibliotecas públicas. Tive a oportunidade de conhecê-la em visita a Biblioteca Gilberto Freyre, do Serviço Social do Comércio - SESC, aonde atua juntamente com a amiga Daiane Rebelo (aluna finalista do curso de Biblioteconomia da UFPE). Em ambas as bibliotecas Marcinha tem colocado de forma descontraída e séria, as bases que refletem seu modo de pensar os espaços, com cores, bons acervos e serviços. Coincidentemente hoje é dia do seu aniversário e espero que Marcinha receba meu abraço e carinho, bem como aprecie reler o que ela mesmo nos apresentou sobre sua trajetória e o seu modo de viver a Biblioteconomia. 

1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Nasci em Recife, na infância morei na cidade do Paulista e depois firmei residência em Recife, mais precisamente em Casa Amarela. Nesse bairro cresci e descobri uma biblioteca pública. Nunca fui melhor aluna, nem era muito ligada à leitura. Meus pais me cobravam o básico para estudar e ser alguém na vida. Memórias infantis eu tenho de minha carinhosa avó materna. Vovó Zefinha me instigou a ler já que era analfabeta e me perguntava sobre as histórias dos livros. Ela sabia muitas histórias do interior aonde ela havia nascido - Lagoa de Itaenga - PE. Acredito que a vontade de ensiná-la a ler, me motivou a ler mais e mais.

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Por volta da segunda série, quando mudei de escola. No Colégio Santa Catarina havia uma biblioteca escolar e foi lá que um mundo se abriu. Lembro ainda de um globo que me deixava curiosa. Nessa mesma biblioteca eu descobri gibis e me apaixonei pelos quadrinhos.

3. O que lhe motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

Senta que lá vem história... eu costumo dizer que a Biblioteconomia me escolheu. Passei a vida toda ouvindo meu pai falar “estude para passar na federal!” e assim minhas escolhas profissionais foram mudando. Pensei em ser juíza e desisti ao conhecer um Vade Mecum (livro grande da gota, assusta qualquer criança de dez anos com senso apurado de justiça), depois desisti e sonhei em fazer Jornalismo. Eu sempre gostei de comunicação e acreditava que estava no caminho certo. No Ensino Médio depois de conhecer o mais maravilhoso dos professores de literatura, Tomas Maciel, quase enveredei pelas Letras. Até que na escolha do vestibular, por uma tabela desatualizada de cursos, a minha opção de número 39 transformou o sonho de cursar Jornalismo em um curso desconhecido, eis que surgia a Biblioteconomia. Parei de estudar para o vestibular e já estava pensando em cursinho, quando fiz a prova e fiquei classificada. Optei por fazer federal, um curso novo que jamais havia pensado, valeu como desafio. Tive oportunidade de mudar de área, mas a minha turma já estava pronta. Os desafios de superar visões ultrapassadas de alguns professores me moveram até o final. Eu aprendi a amar, respeitar e militar por livros, leitura e bibliotecas. A informação em suas mais variadas facetas me seduziu.

4. Que disciplina mais gostava quando era estudante?

Administração, história do livro e das bibliotecas, serviço de referência e todas as disciplinas da professora Cristina que me ajudaram muito a pensar, acho que esse é o papel da Universidade. Te apontar caminhos e te fazer PENSAR. O que eu posso fazer para melhorar esse mundo?

5. Que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc)

Acho que cada biblioteca tem uma linha especial mas meu coração se desmancha especialmente por bibliotecas escolares e públicas. Na primeira, a missão de conquistar novos leitores e mostrar que dos livros podemos tirar muitos proveitos. Na biblioteca escolar os livros são instrumentos pedagógicos, aí cabe ao profissional encantar fazendo uso da literatura. Quanto às bibliotecas públicas, elas alimentam o desafio de formar leitores em diferentes idades e promover outras possibilidades. Promover dentro do espaço de biblioteca outras linguagens como música, teatro, artes em geral qualifica e afirma o exercício e o poder do cidadão em se reciclar.

6. Você está a frente do processo de transformação da Biblioteca Pública de Ipojuca, conte-nos como atuou junto com a administração pública nesse processo.

O primeiro leão a matar diariamente é a distancia. Pois, a cidade do Ipojuca fica a cerca de 50 km da minha casa. Além da distância, influir nos processos que qualifiquem a biblioteca é uma militância grande. Brigar por espaço, por estantes novas, por equipe capacitada e bem remunerada não é fácil. Sou bibliotecária de uma rede, divido a responsabilidade com outras três bibliotecárias ( Aninha, Cris e Natália), cada uma em seu distrito fazendo o seu melhor para lutar pela área. Fazer com que as pessoas percebam a importância de uma unidade de informação como centro cultural de múltiplas possibilidades às vezes fica complicado, você se torna a INTROMETIDA, fui muitas vezes taxada de “ bibliotecária chata e chorona”. Quando soube do novo espaço fui visitar a obra e pedir mais espaço. Na primeira vez não deu tão certo, pois, acabamos ocupando o espaço de um auditório por mais de dois anos. Depois, conseguimos vez e voz. Em parceria com a Arquiteta Stael Tavares, o novo prédio ficou lindo. Temos espaços para crianças, jovens, adultos, jardim o que me dá esperança de realizar ações culturais variadas.

7. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Profissional me considero desde o primeiro estágio. Trabalhei na Biblioteca do Ministério Público de Pernambuco onde conheci uma mulher inspiradora, Socorro Félix que foi minha madrinha na graduação. De lá fui ao tribunal de Justiça de PE, onde ajudei a montar um Memorial da Justiça. Depois fui ao SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), nessa instituição tive uma experiência massa... DESMONTAR a biblioteca e transformá-la em virtual. Tudo que eu via na universidade pude fazer lá, trabalhei com profissionais maravilhosas, como Conceição e Glorinha, ser supervisionada de Brasília foi uma experiência que me deu muita autonomia de fazer do meu jeito. Criar um espaço novo para os funcionários e a comunidade. Depois de formada lá se vão treze anos de Sesc. Esse foi o primeiro trabalho de fato, vivi e aprendi experiências em várias áreas como música, esportes, saúde, teatro entre outros. Acho que as lembranças mais lindas e gratificantes eu vivi no interior do estado quando fazia a coordenação pedagógica das Jornadas Literárias. Pude ver crianças e jovens tratando a literatura com respeito e curiosidade. Por fim, na Prefeitura do Ipojuca, onde trabalho a mais de cinco anos, aprendi a respeitar o tempo das pessoas. Aprendi a trabalhar com contação de historias. Tive a oportunidade de trabalhar com Everalda Assis, uma grande gestora que se importava com as pessoas e conduzia muito bem sua equipe. Hoje me sinto grata a todos que passaram em meu caminho e me ensinaram muito. Percebo a mudança de postura das pessoas e o respeito que professores e população tem com a Biblioteca Publica.

8. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Assista bons filmes, leia o que gostar, se atualize com as notícias do planeta. Biblioteconomia é informação e isso captamos desde quando acordamos. Acredite em seu potencial e milite dentro da área nos assuntos que gosta de verdade. Não seja um profissional de cara amarrada. O peso de trabalhar no que te faz feliz, torna seu dia mais leve. Nunca acredite que sabe o bastante, pois é sempre hora de aprender conhecimentos novos

9. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Ainda na Universidade percebi que o bibliotecário tem um papel grande na sociedade. Desde a Universidade percebi o poder de articulação quando se tem a informação nas mãos. Aprendi que bibliotecário pode trabalhar até em bolsas de valores. Onde circula a informação é campo do nosso trabalho. A realização de Fórum de biblioteconomia me deu experiência para trabalhar com eventos. Minha BABILÔNIA querida me ensinou muito também. Dos amigos que comigo estudaram tenho alguns que não trabalham em bibliotecas. Tive grandes parceiros professores, publicitários, poetas e jornalistas.

10. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta

Claro, sem gostar de ler não haverá curiosidade de descobrir novidades e sem atualização você se torna um profissional parado no tempo.

11. Qual a biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?

A mais legal que já visitei foi a Parque da Rocinha e o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro. A que eu quero conhecer é a do Congresso Americano. Mas ainda tenho curiosidade de conhecer as públicas de Alemanha, Colômbia e Suécia.

12. Dentre os tantos livros que você já leu, cite um e recomende.

Gostaria de recomendar aqui um livro para os profissionais da área. O livro do amigo Jonathas Carvalho, “Tópicos em Biblioteconomia e Ciência da Informação: epistemologia, política e educação” comprei no ultimo bibliocamp e achei fantástico. Nele percebi questionamentos e anseios para os profissionais da área. Recomendo muito. Agora se a literatura for para deleite total recomendo Manuel Bandeira um poeta pernambucano que acho arretado e muito sensível - Estrela da vida inteira, pode ler!

13. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

Acho que bibliotecário pode e deve buscar parcerias. Sem amigos, visibilidade e parceria é muito difícil caminhar.

14. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade?

Participo de fóruns, dou a minha contribuição no bairro e apoio iniciativas de artistas locais. Queria fazer uma ONG em Casa Amarela, mas isso são planos futuros. Sonhos que um dia sairão da cachola!

15. Há algum bibliotecário (a) que você considera fora de série?

Sou fã de minha estagiária. Daiane Rebelo, ela será certamente uma bibliotecária fora de série, tem um projeto lindo chamado livres-se que distribui livros e sai por ai poetizando os espaços.

16. Do que mais gosta na sua profissão?

Amo o potencial social da profissão, isso me alimenta e me move para transformar vidas.

17. Fique a vontade para fazer seus comentários finais.

Agradeço a oportunidade e deixo um grande abraço pelo maravilhoso trabalho de caçar, desvendar e multiplicar lugares lindos. Deixo meu muitíssimo obrigado.


Foto: Soraia Magalhães
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