LIBRARY AT THE DOCK - A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS


Se eu tivesse que nomear uma biblioteca "estado da arte", aquela que compreende o que temos hoje de mais avançado em termos de espaço físico, produtos, serviços de biblioteca e atendimento aos usuários, seria a Library at The Dock. Esta é, por ora, a biblioteca do meus sonhos, aquela onde eu gostaria de trabalhar como bibliotecário. Mas para isso, fuém fuém fuém, eu teria que me mudar para Melbourne.

O diferencial no projeto é que, desde a concepção, a Library at The Dock incorporou a missão de ser um espaço para a criação de projetos/programas comunitários, desenvolvidos pela própria comunidade/usuários. O que, em tese, não deveria ser novidade alguma, mas até onde pude ver com meus próprios olhos, funciona de verdade. Essa ideia de participação dos usuários só pode ser encarada como novidade porque, para o bem ou para o mal, bibliotecários e arquitetos normalmente trazem noções pré-concebidas, muito diferentes das dos usuários, quando tratam de (re)imaginar as bibliotecas para os dias de hoje. E essas noções acabam sendo expressadas de maneiras ruins no relacionamento entre a biblioteca e seu contexto, o espaço físico e as pessoas, o acervo e os usuários.

Simples posto, a administração da Library at The Dock trabalha junto aos usuários para certificar que aquilo que estão oferecendo seja de qualidade e do agrado dos cidadãos, que por sua vez oferecem um feedback sobre a funcionalidade dos espaços e serviços oferecidos pela biblioteca.

A coisa mais instigante que eu percebi é que a biblioteca oferece diversos espaços para uso livre dos usuários. Existe uma coordenação de agendamento e é feita uma cobrança simbólica por hora de uso, de modo que os usuários podem utilizar salas de reuniões, auditório para 120 pessoas, um estúdio de gravação, espaço de aprendizagem com equipamentos multimídia, além da coleção tradicional. Algumas bibliotecas no Brasil fazem isso, mas acho que ainda não existe o senso público, entre as pessoas comuns (cidadãos contribuintes), de que é possível que elas se apropriem do espaço físico da biblioteca e suas amenidades. Pensem por exemplo, quais são os locais públicos no contexto da cidade, onde é possível realizar uma reunião entre pessoas com interesses comuns? Muita gente vai dizer praça pública, shopping, praia, starbucks, mas acho que poucas vão pensar na biblioteca.

Pra mim o maior exemplo dessa apropriação do espaço físico pelos cidadãos são as duas mesas de ping pong que a biblioteca possui. Em que local, no contexto da cidade, seria possível duas pessoas desconhecidas brincarem de ping pong? Na praça, na praia, talvez sim. Mas na biblioteca também, por que não? Mas quem pensou na biblioteca como uma primeira resposta? Pois bem.

A outra coisa importante sobre a mesa de ping pong (que aliás também não é novidade no Brasil. Existe, ou existia até pouco tempo atrás, uma mesa pública de ping-pong no térreo do Museu de Arte do Rio) é que nos remete à velha discussão sobre a biblioteca como espaço que salvaguarda e privilegia o acervo contra a biblioteca como espaço da coletividade e exercício da cultura e cidadania . Eu particularmente acho que não existe meio-termo. Basta frequentar qualquer biblioteca e perceber como elas se dividem entre as que se parecem mais como um museu de livros e aquelas onde os livros, invariavelmente, são relegados a segundo plano face à necessidade de uso de espaço físico, ferramentas multimídia, internet e video-games. Talvez a dúvida seja mais sobre o que ainda é possível denominar biblioteca, ou quais seriam os limites da biblioteca moderna.

A verdade é que na Library at The Dock, estado da arte, as mesas de ping pong estão lá, assim como o empréstimo de ipads, video-games, maker space com impressora 3D, catálogo em tela touch de 50 polegadas, café. Mas também estão os livros, os e-books, os bestsellers, os periódicos, as graphic novels, os fanzines e tudo mais. O que mais alguém poderia querer?

A Library at The Dock foi construída em um parceria público-privada, ao custo de 23 milhões de dólares australianos. A construção dos três andares foi concluída em 2 meses e meio, incrível. Ela é o primeiro prédio público na Austrália construído com a tecnologia CLT (madeira laminada), que reduz emissão de carbono e o peso da edificação. Veja mais fotos da biblioteca.
 

[uma das duas mesas de ping pong localizadas no terceiro andar. A sala é hermeticamente fechada e o piso é coberto com grama sintética. Ou seja, o volume da algazarra é mínimo e não atrapalha quem está do lado de fora. A biblioteca oferece raquetes e bolinhas]
 

[No primeiro plano uma usuária fazendo auto-empréstimo. No plano ao fundo bibliotecária atende usuária]
 

[parte da seção infanto-juvenil]
 

[área isolada para estudo em silêncio]
 





[Área próxima ao café da biblioteca. As telas são o catálogo]
 

[empréstimo de ipads, não lembro se podia levar pra casa ou se era pra uso dentro da biblioteca]
 

[espaço digital, com uso livre de imacs, xbox e playstation]
 

[maker space com impressora 3D]
 

[cantinho da leitura. A biblioteca fica sobre um antigo pier, próxima a uma marina. Dá pra ficar vendo os barquinhos passeando pela baía]
 

[estação de atendimento das bibliotecárias]
 

[área de processamento técnico. Acesso restrito aos bibliotecários, mas dá pra ver tudo o que acontece pelos vidros]
 

[você senta, conta uma história e o telefone grava sua fala para um projeto de contação de histórias, e você ouve histórias de autores famosos. saiba mais aqui: Dial a Story]
 



[é nóis no pingpong]
 
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