MORENO BARROS - PROFISSÃO: BIBLIOTECÁRIO

No Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias - SNBU de 2010, entrando num ônibus que nos levaria ao evento, sentei ao lado do Bibliotecário Moreno Barros e por pouco mais de 20 minutos conversamos sobre biblioteconomia e estudos. Descontraída, a conversa deixou a melhor impressão desse jovem que encara a biblioteconomia com respeito e paixão. Foi porém, o CAÇADORES DE BIBLIOTECAS, que nos aproximou novamente e depois, o convite para participar do Bibliocamp (evento organizado por ele em 2011). Leitora do BIBLIOTECÁRIOS SEM FRONTEIRAS, onde Moreno é um dos editores, é para mim, um enorme prazer compartilhar um pouco de sua visão sobre biblioteconomia, livros, leitura, contexto atual da profissão...e BIBLIOTECAS!!!


1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Nasci e cresci no Rio de Janeiro. Meus pais sempre foram leitores assíduos, embora não frequentassem bibliotecas. Havia uma pequena estante de livros em casa, livros comprados em livrarias e sebos, que ajudou a despertar o interesse para leitura. Aprendi a ler e escrever com 4 anos.

Na casa dos meus avós tinha um livro sobre educação sexual para crianças, com um desenho do desenvolvimento do corpo masculino e feminino, da infância até a fase adulta, passando pela puberdade, e aquilo para mim era a coisa mais fascinante que eu já tinha lido. Imaginava chegar aos 10 anos de idade rápido para poder ganhar o livro de presente (que deve ter sido leitura obrigatório nas gerações de netos e tios acima da minha). Foi o livro que marcou a infância.
Outros livros que marcaram:
Meus avós também tinham uma coleção de livros infantis do Zé Carioca. Uma espécie de coletânea que falava de esportes, países, escotismo, etiqueta. Meu pai tinha um livro de vestimentas antigas, imagens de roupas e alfaiataria, desde os homens das cavernas até a idade moderna.
Meu pai também tinha um livro de logotipos das principais empresas até os anos 70. Meu pai tinha um livro em espanhol, um conto estilo João e Maria, chamado “El Pajaro del Fuego”. Li muitos gibis do Maurício de Souza, comprava aqueles Almanaques de férias da turma da Mônica.

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?
Não lembro de ter frequentado bibliotecas escolares na infância, as escolas que eu frequentei não possuiam. Algumas vezes estive nas bibliotecas da rede SESC aqui no Rio, passeando com os pais. É a minha lembrança mais vívida de biblioteca na minha infância. Enquanto meus pais liam jornais eu folheava revistas e livros de ciência.


3. O que lhe motivou a fazer Biblioteconomia?


Eu tinha voltado ao Brasil depois de alguns anos morando no exterior. Eu estava nas vésperas das provas do vestibular e senti que não estava preparado o suficiente para passar para cursos de grande concorrência e que eu tinha um interesse mais próximo (comunicação, história). Então sondei a oferta de cursos nas universidades públicas e apareceu biblioteconomia no livro do candidato. Pesquisei um pouco sobre a área e tive incentivo de parentes que são bibliotecários.
Eu não queria correr o risco de prestar o vestibular e não passar e ter de esperar um ano inteiro para tentar ingressar nos cursos que eu considerava como prioridade, então eu acabei optando por biblioteconomia, levando em conta a baixa competitividade no vestibular e o fato de eu já estar relativamente atrasado na faixa etária pela diferença de formação de ensino médio que eu tive. E passei, para UFF e UNIRIO, as duas universidades que prestei vestibular. Ou seja, pode ser que houvesse uma motivação implícita na escolha da carreira, já que eu sempre prezei muito livros e o mercado editorial e métodos de organização. Por muitos anos eu pensei em ser dono de uma banca de jornal, apenas sonhando com a chance de poder ler todas os jornais diários e revistas de grande circulação. Mas o que definiu mesmo a escolha pelo curso foi essa urgência de ter de escolher uma carreira e não perder tempo especulando demais sobre o futuro profissional.
No final das contas, eu achava que se fosse competente o suficiente, eu seria bem sucedido independente da formação que escolhesse, atuando em qualquer mercado de trabalho. E uma vez dentro da escola de biblio, nunca cogitei sair ou mudar de curso. Fui feliz do primeiro ao última dia de aula.



4. Que disciplina mais gostava quando era estudante?


Gostei mais das disciplinas de recuperação (fontes, automação, referência) do que as de organização (classificação, catalogação, indexação). Eu gostava mais de determinados professores do que disciplinas, na verdade. E a UFF tinha vários professores excelentes (Vera Breglia, Lidia Freitas, Sandra Rebel, José Maria Jardim, Luiz Antonio de Souza, Lucia Fidalgo, Gilda Helena Batista e tantos outros). Quando fui fazer estágio (e consegui já no primeiro ano) eu tive um baque por achar que a teoria estava muito distanciada da prática. E me desinteressei um pouco pela dinâmica da sala de aula. Mas depois vi que isso era normal e voltei a apreciar as disciplinas, com um senso crítico mais apurado sobre as diferenças entre o que aprendia na sala e as coisas que aplicava no dia-dia dos estágios em bibliotecas.

5. Que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc).

Eu sempre tive grande afinidade com bibliotecas universitárias, por ter sido o primeiro grande encontro (já como aluno do curso), por ter sido meu primeiro estágio (e eu considero até hoje a biblioteca universitária a grande escola de biblio, já que ali você invariavelmente tem de lidar com todos as peculiaridades presentes nos outros tipos de bibliotecas) e por ter seguido carreira acadêmica. Mas eu ainda imagino um relacionamento maior meu com as bibliotecas públicas. Sou usuários cadastrado de várias, mas os serviços em comparação às bibliotecas universitárias que também sou usuário estão muito aquém, então acabo utilizando mais as universitárias. Uma pena.


6. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.


Meu primeiro estágio foi na biblioteca central da Universidade Cândido Mendes. Eu comecei no balcão, gostei e quis ficar por ali. O acervo era fechado, CDU, então eu percebi de cara que o trabalho de referência e a capacidade de conhecer os materiais do acervo era super importante para a qualidade do serviço. E essa coisa de lidar com universitários, com jovens, que naquele momento eram iguais à mim, facilitou as coisas. Eu falava a mesma língua deles. Depois eu fui fazer um pequeno inventário na biblioteca do PEN Club do Brasil. Pouco depois fui pra Biblioteca Nacional, inicialmente no setor de Cartografia, passei pelo setor de processos técnicos e trabalhei com os projetos de digitalização, já não mais como estagiário e sim como contratado pelo projeto. Nesse interim, continuei na Candido Mendes, fazendo ao mesmo tempo as aulas de biblio e os dois estágios. Fui também para a FINEP, fiquei um ano. Terminei a graduação, entrei no mestrado, fui trabalhar em uma empresa de internet, depois saí do Rio, fui morar em São Paulo para trabalhar em uma agência de marketing. Retornei ao Rio para entrar na UFRJ, onde estou até hoje. Agora eu estou terminando o doutorado na UFRJ e dando aulas como professor temporário na UNIRIO. Em todos esses trabalhos, conheci pessoas especiais e incríveis, que me ensinaram muitas coisas (de biblio ou não) e eu sou muito grato. Teria que escrever uma biografia para contar todos os detalhes.


7. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?


O conselho é que a pessoa esteja bem certa de que quer mesmo esta profissão, pois entrar sem saber e esperar se apaixonar por ela (que é o que acontece com a maioria de nós) pode não ter um final feliz. Assim como em qualquer outra profissão, a pessoa tem que colher informações, se imaginar como o profissional nos próximos 10, 20, 30 anos. Fora isso, é uma carreira como qualquer outra. Eu sinto as vezes que a biblioteconomia e os bibliotecários são pretensiosos demais. A profissão é simples. Não há nada mais belo e importante do que colocar livros nas estantes e o que isso representa para a sociedade. As pessoas precisam estar confortáveis com esse papel, para não assumi-lo cheio desses dilemas morais que cercam os bibliotecários (tecnicista x humanista, educador x mediador, bibliotecário de fichinha x documentalista, bibliotecário x profissional da informação, blá blá blá)

8. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Pode ter tido algum outro momento anterior, mas a grande virada veio quando eu conheci Fabiano Caruso no enebd de Curitiba, 2003. E percebi que era possível aliar a internet ao trabalho do bibliotecário e vice-versa. Não acho necessariamente que um bibliotecário tenha que se meter com coisas que vão além da organização da informação registrada para fins de recuparação, mas a web ampliava o leque de possibilidades enormemente, sem desviar do ethos tradicional do bibliotecário. Foi um choque.

9. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta.

Acho que sim. A pessoa tem que dominar o acervo. Ela não precisa ler tudo do acervo, dependendo do acervo isso é impossível, mas ela tem que reconhecer as obras. Não precisa ler os livros, mas tem que ser capaz de promover um início de conversação tendo como base qualquer livro do acervo em que trabalha. E deveríamos dar o exemplo, não somente em volume e qualidade de leitura, mas também em frequentar bibliotecas. Bibliotecários não lêem e não frequentam bibliotecas, é lamentável. E ler as coisas da área, os nossos autores, que são excelentes (Edson Nery, Milanesi, Waldomiro, Antonio Miranda, Francisco das Chagas, tantos outros). Bibliotecários tinham que discutir mais esses caras, aproveitar que todos eles ainda estão vivos. E ler todo o resto. Os clássicos. Jornais. Blogs. Ler né, é a experiência suprema. Tá pra todo mundo, em qualquer lugar.

10. Qual a biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?

Tantas bibliotecas...Muitas bibliotecas que visitei se destacam por especificidades, uma que tem melhor acervo (BN), uma que tem melhor arquitetura (Real Gabinete), uma que tem melhor proposta comunitária (Manguinhos), uma que tem melhor proposta moderna (Oi futuro), uma que tem as melhores estantes (Fiocruz), uma que tem a melhor proposta cultural (CCSP), uma que tem melhor abordagem de redes sociais (ECA), uma que tem melhor proposta digital (Biblioteca São Paulo), uma que tem melhor trabalho com deficientes físicos (Pública de Fortaleza), a melhor universitária (PUCRS), melhores luminárias (ABL) e por aí vai. Duas bibliotecas que visitei condensam quase todas as qualidades que eu vi nas outras bibliotecas que frequentei e gostei, tanto em termos de espaço físico, acervo, produtos e serviços: a pública pública de Copenhagem e a pública de Gotemburgo. Seria um enorme prazer trabalhar como bibliotecário em uma dessas duas bibliotecas.

11. Dentre os tantos livros que você já leu, cite um e recomende.

Eu sempre estou inclinado a citar “O morro dos ventos uivantes” como o livro que eu mais gostei, mas é clichê. Eu leio muito mais não-ficção, do que ficção. E eu não guardo livros em casa (1º lei...). Não tenho um registro das coisas que li. Geralmente leio coisas em blocos temáticos, de uma vez só. Recentemente eu li e reli os livros sobre a fundamentação teórica do brasileiro (Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Antonio Risério, Darcy Ribeiro, Mangabeira Unger, Vilém Flusser). Li também biografias musicais (Lobão, Tim Maia, Nelson Motta, até Dr. Fausto). Graphic novels (Inferno de Dante, Logicomix, Fahrenheit, Kardec, Lucille). Livros em bloco sobre web, biblioteconomia, história. Eu recomendaria a trilogia da criminalidade carioca (Cidade Partida, Zuenir; Abusado, Caco Barcellos; Cabeça de Porco; Luís Eduardo Soares).

12. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

Acho que a minha geração teve a sorte de vir junto com a web e avanços tecnológicos que foram efetivamente adotados em muitas bibliotecas. Permitiu um certo nível de experimentalismo, que foi capitaneado por nós. E ofereceu melhores oportunidades de emprego. Estamos bem, dentro das bibliotecas. Mas ainda falta muito para uma biblioteconomia realmente importante para a sociedade, que extrapola os muros da biblioteca física, para um país que quer se consolidar, nem que seja meramente um surto de alta auto-estima. Falta refletir sobre o que a gente vai fazer se as bibliotecas deixarem de existir, pelo menos como a gente conhece hoje, porque essas coisas estão na ordem do dia, não é nada absurdo. Falta muita coisa ainda. Mas tem mais gente boa capaz de causar um impacto do que os muitos medíocres que só querem o 8-17h. E eu espero que nos próximos 10, 20 anos, essas pessoas, os bons, se tornem expoentes, chefes de grandes bibliotecas, diretores de grandes redes, de políticas públicas, e torcer para que eles se mantenham fiéis aos propósitos de uma perspectiva de biblioteca para todos, que funciona e agrada.

13. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade?

Não vejo. Tendo como foco o meu tipo de perfil de usuário, a biblioteca pública existe para os que querem pegar livros clássicos emprestados, e só. Mas o mesmo trabalho que eu tenho para me deslocar até a biblioteca mais próxima da minha casa, que possua o exemplar que eu desejo, que funcione em horário compatível com o meu horário de trabalho, é o mesmo esforço e dispêndio de dinheiro que eu faria visitando o sebo local ou comprando na estante virtual. Ou seja, nada útil. Se o acervo não é atrativo ou os serviços, então que pelo menos o espaço físico sirva. Mas nem isso. Você sabe melhor do que eu. Existem casos isolados de bibliotecas que são maravilhosas. A gente então só precisa replicar esses modelos. Por que não? Por que é tão difícil? Por que não ter 200 bibliotecas como a de Manguinhos, ou como a Mario de Andrade, CCSP, a Biblioteca São Paulo?
Mas poderia ser, e ainda existe esse potencial. Então é só trabalhar pra reverter o quadro. E fazer o possível para driblar as restrições e rigidez que as bibliotecas estão subordinadas, tanto na esfera pública como privada.



14. Há algum bibliotecário (a) que você considera fora de série?


Conheci vários fora de série (mesmo porque em um panorama de mediocridade, não é muito difícil ser um fora de série). Mas essas pessoas seriam fora de série em qualquer área que trabalhassem. Trabalhei com um bibliotecário chamado Day Nunes, que era excepcional. Outro que não era bibliotecário mas era tão bom quanto deveria, Paulo Prado. Os dois da Cândido Mendes. Trabalho com um atualmente que é extra série, Jorge Esteves. É do tipo que quando aposentar, a biblioteca vai declinar qualitativamente, uma perda irreparável. Na verdade na condição de usuário não temos muito contato com os bibliotecários (o que é ruim, conceitualmente). E sim com os atendentes. E muitas vezes fui bem atendido, por pessoas que não sei quem são nominalmente.

15. Do que mais gosta na sua profissão?

De estar em busca do estado da arte, da necessidade de saber antes que os usuários perguntem.

16. Fique a vontade para fazer seus comentários finais.

Acho o máximo o seu trabalho (lembra da nossa conversa no SNBU, depois o email que eu te mandei elogiando o blog?). As pessoas precisam sair e conhecer gente e bibliotecas que funcionam, que fazem o bem, que fazem bem. E coletar essas experiências e repeti-las nas suas bibliotecas. Nunca foi tão simples. Não precisamos importar modelos, nós temos o nosso. Mas as pessoas não conhecem, só porque elas continuam presas nas suas próprias bibliotecas. Quando os bibliotecários deixarem de ser bibliotecários, por um dia que seja, e voltarem a ser usuários, preocupados com livros, leitura, qualidade e prontidão de serviços, produtos eficazes e eficientes, daí eles vão perceber que estão fazendo errado e que podem fazer melhor, porque tem ferramenta e capacidade técnica para isso. E você faz esse trabalho. Continue.


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