LOURIVAL PEREIRA PINTO: PROFISSÃO BIBLIOTECÁRIO



Lourival Pereira Pinto atualmente é professor do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, mas será transferido em breve, para Universidade Federal de São Carlos. Entre as disciplinas que ministra na UFPE, estão Linguagens Documentárias Hierárquicas, Informação e Sociedade e Seminários de Leitura. Um de seus méritos é ter conseguido aliar o estímulo das práticas leitoras, com os procedimentos técnicos peculiares de nossa área. Com grande foco de interesse por Literatura, Lourival achou um caminho para o exercício biblioteconômico. Tive a oportunidade de conhecê-lo por meio da indicação de uma de suas alunas, a Daiane Rebelo. Foi ela que nos colocou em contato e me fez conhecer um Bibliotecário admirado por muitos.

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1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Nasci em Quatá, uma cidadezinha do interior de São Paulo, mas cresci na cidade de São Paulo, numa casa agradável de esquina, onde muitas crianças iam brincar na rua (inclusive eu). Me lembro que meu pai gostava muito de ler (mais tarde descobri que ele adorava os livros de José de Alencar, Machado de Assis e alguns autores portugueses). E minha irmã mais velha trazia pra casa quadrinhos e fotonovelas (nunca mais vi dessas), eu folheava tudo aquilo avidamente.

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Ah, já foi no período escolar. Não havia bibliotecas no meu bairro e nem na escola. A biblioteca mais próxima ficava num bairro a uns 7 km, precisava ir de ônibus. Me lembro que lá, quando eu terminava a pesquisa, ia ler gibis, mas a bibliotecária não gostava, dizia que os alunos deveriam frequentar a biblioteca apenas para pesquisar. No meu bairro havia uma banca de jornais, revistas e livros e lá eu trocava dois livros por um. Nessa contabilidade nossa biblioteca diminuía, mas minhas leituras aumentavam...rsrsrs.

3. O que lhe motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

O amor pela literatura. Iniciei o curso de Letras, porém desisti no primeiro semestre, concluindo que aquilo não era bem o que eu queria. O curso de Biblioteconomia me pareceu ser a escolha mais óbvia. No início, tive um choque, pois a maioria dos alunos (e professores) não conheciam muito sobre literatura, abordavam mais os aspectos técnicos. Mas eu continuei porque, pelo menos, teria contato com os livros. E assim foi, enquanto os alunos processavam os livros, eu processava e os lia também, rsrsrs. Ah, também teve outro fator que me influenciou muito. Existe um livro que adoro, chamado Doutor Jivago, de Boris Pasternak. Esse autor teve uma história de vida interessante. Ele ganhou o prêmio Nobel de Literatura, porém teve que recusá-lo por razões políticas. Ele, numa época de sua vida, foi bibliotecário. Confesso que isso também me influenciou.

4. Que disciplina mais gostava quando era estudante?

Havia duas: Literatura e Catalogação. Literatura porque, obviamente, era meu assunto preferido e Catalogação porque nela, eu podia explorar todos os aspectos de um livro. Eu poderia ter gostado também de Classificação mas a professora não me agradava e isso me afastou um pouco.

5. Que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc).

Com as bibliotecas escolares e comunitárias. Acredito que, por várias razões, as bibliotecas escolares são espaços fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. E as bibliotecas comunitárias são produtos de comunidades “guerreiras” que não esperam que as coisas aconteçam apenas pelas vias governamentais.

6. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Logo que me graduei, fui trabalhar numa biblioteca universitária (UNIP, em São Paulo), e fiquei por lá um ano, trabalhando no processamento técnico. Porém, nos momentos de folga eu corria ao balcão para fazer atendimento. Adorava estar em contato com as pessoas. Depois fui trabalhar numa biblioteca escolar (SENAI – SP). Fiquei por lá 7 anos, fiz o meu melhor, porém, hoje vejo que podia ter feito mais. Podia ter atuado mais na área cultural, porém a graduação não me preparou para tarefas como mediação de leitura, ação cultural, então eu achava que isso era atribuição de um pedagogo. Mas mesmo assim, trabalhei muito com indicação de leituras, ampliei (o acervo literário) e automatizei todo o acervo. Um fato marcante foi que, na época, foi lançado o primeiro livro de Harry Potter (a pedra filosofal), e sabendo da recepção dele no exterior, pedi à escola pra comprar vários exemplares desse volume e dos que se seguiram. Uma das alunas me agradeceu profundamente por tê-la apresentado ao mundo de Harry Potter. Do SENAI fui trabalhar na Sociedade Bíblica do Brasil. Eles queriam implantar o Museu da Bíblia, e esse foi um trabalho que me deu inteira satisfação. Foi uma experiência que me permitiu ampliar a Biblioteconomia além das fronteiras disciplinares. Lá eu gerenciei a criação das áreas de exposição (design, espaços, iluminação, objetos, textos, enfim toda a expografia), a implantação de toda a biblioteca (espaços, acervos, organização, bases de dados, referência, recursos humanos, etc), e o sistema de arquivos. Uma das tarefas que me deu mais satisfação foi a criação da ação educativa, que me fez entrar de vez no mundo da mediação cultural. Enfim, nesse trabalho, descobri que a Biblioteconomia é a única área que pode nos levar a conhecer todas áreas do conhecimento, e nos possibilita dialogar com todos à altura. Magnífico. Depois lecionei um tempo no curso de técnico em Biblioteconomia no SENAC-SP. Lá eu ensinava aos alunos como fazer o processamento técnico em bibliotecas. A partir de 2010 comecei a lecionar na Universidade Federal de Pernambuco, onde tento envolver os alunos em atividades de organização e mediação, que, acredito, serem, ao lado de gestão e ambiência, as colunas da Biblioteconomia.

7. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Há duas Biblioteconomias: a biblioteconomia das coisas e a Biblioteconomia das pessoas. Pense nas pessoas. Um bibliotecário deve ter como objetivo a formação literária das pessoas e o seu letramento informacional. Hoje as bibliotecas (sejam quais forem) são espaços de trocas e vivências. Diria o seguinte a um candidato: não entre no curso porque você é tímido e acha que vai ficar num birô trabalhando escondido. Não entre no curso só porque há muitos concursos e há poucos profissionais. Não entre no curso se não gosta de ler (bibliotecário que não lê é inadmissível). Não entre no curso se não gosta de pessoas, se for mal-humorado, e se não for uma pessoa afetiva. Na nossa área há muito a se fazer, mas os empreendedores são poucos, por isso tenha vontade de fazer a diferença.

8. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Foi no momento em que fui trabalhar num museu. Lá descobri que podemos atuar em múltiplos espaços e com múltiplos objetos. Mas, faço uma ressalva aqui: muito profissionais (e professores) que fazem o curso não gostam de bibliotecas. Nossa área está saturada de gente que fala de tecnologias, comunicação científica e tem pavor de bibliotecas. Acredito que devemos retomar as bibliotecas, senão nossa profissão vai perder o sentido. Eu sou bibliotecário e gosto de bibliotecas.

9. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta.

Se não gostar de ler, é bom que nem faça o curso. Quem não lê, não pode mediar leitura, não pode orientar um letramento informacional, não sabe escrever. Acho que uma pessoa que não gosta de ler, deve, em primeiro lugar se autoavaliar, e ver bem o que ela quer. Há muitas profissões que não exigem leitura, que não exigem esforço mental. Talvez eu esteja sendo radical aqui, mas tem momentos na vida que devemos deixar claras algumas coisas.

10. Qual a biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?

São várias: a biblioteca de São Paulo (antigo Carandiru), a Biblioteca Nacional RJ), a nova Mário de Andrade (SP). Gostaria de conhecer a Biblioteca do Congresso Norte-Americano, pela imensidão que ela me representa, e as bibliotecas do Acre, da Colômbia, e algumas européias. Na verdade, não me encanto tanto pela arquitetura ou beleza dos prédios, mas sim pela funcionalidade e pelos resultados que uma biblioteca alcança. Às vezes uma biblioteca comunitária pequena mostra mais resultados e afetividade do que uma espetacular biblioteca pública.

11. Dentre os tantos livros que você já leu, cite um e recomende.

Dostoiévski, sempre Dostoiévski, qualquer um dele. Costumo dizer aos alunos que todo jovem deve ter lido pelo menos três livros, que por várias razões sempre recomendo. Sem eles, um adolescente não é completo literariamente. São eles: O Bosque das Ilusões Perdidas (de Alain Fournier), On The Road (de Jack Kerouac), e O Apanhador no Campo de Centeio (de Salinger), Acho que é um ótimo começo.

12. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

A Biblioteconomia precisa se posicionar como uma profissão voltada às pessoas. Somos organizadores, mas sobretudo, somos mediadores. Devemos estar presentes nas discussões que envolvem leitura, livro e bibliotecas. Cada vez mais tenho convicção que devemos ser educadores. Os mundos da educação e da cultura precisam disso (e muito).

13. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade? 

Não posso comentar sobre isso. Não conheço muita coisa sobre elas. (que são pouquíssimas). 

14. Há algum bibliotecário (a) que você considera fora de série?

Sim, vários. Não sei se posso citar nomes, mas aqui vai um deles: Cida Fernandez, que atua no Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda-PE. Empreendedora, batalhadora, ela levou a Biblioteconomia para as discussões de políticas públicas em nível municipal, estadual e até nacional.

15. Do que mais gosta na sua profissão? 

É uma profissão que não se especializa numa área específica do conhecimento (com exceção das disciplinas de organização). Ela pode trafegar e discutir questões amplas de cultura e educação, se movimentando por várias disciplinas. Acho essa flexibilidade adorável.

16. Fique a vontade para fazer seus comentários finais.

O que sempre me moveu foi a leitura e a literatura. Essas duas maravilhas me levaram à Biblioteconomia, e hoje posso, por meio da Biblioteconomia, trabalhar com a leitura literária, e como professor, incentivar os futuros profissionais a terem gosto pela leitura, pela cultura e pelas pessoas. A Biblioteconomia pode abrir muitas portas, mas para isso deve-se ter uma ideologia e vontade de transformar pessoas. Eu luto por uma causa, a leitura literária. E acredito mesmo que todas as pessoas devem ter uma causa por qual lutar. Pra mim, a Biblioteconomia é um campo onde posso lutar ao lado de muitos companheiros que têm objetivos comuns aos meus. A Biblioteconomia deve ser uma paixão, porque as causas são movidas pela paixão. 


Foto extraída do Facebook de Lourival.
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