BRIQUET DE LEMOS: PROFISSÃO BIBLIOTECÁRIO


É com o maior orgulho que apresento na seção Bibliotecários Fora de Série, Briquet de Lemos. Bibliotecário, professor, tradutor, editor e outras coisas mais, o Professor Briquet é uma pessoa de admirável cultura e simpatia. Tive a oportunidade de conhecê-lo durante a criação da Associação Brasileira de Profissionais da Informação - ABRAINFO em São Paulo em 2012, mas foi em Brasília que conversamos em sua bela livraria onde falamos de livros, dicas sobre publicação de livros infantis e bibliotecas públicas, nesse caso, em especial, a Biblioteca Nacional de Brasília. Cidadão envolvido com o pensar biblioteconômico, Briquet de Lemos foi um dos articuladores da ABRAINFO e atualmente é presidente de seu conselho deliberativo. Aproveito para agradecer sua colaboração e desde já, destaco que foi muito bom poder conhecer um pouco mais de sua trajetória por meio dessa entrevista.
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1. Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Nasci em Teresina, PI, em 15 de novembro de 1937: celebrava-se a República e fazia cinco dias que Getúlio Vargas dera o golpe de estado que implantou a ditadura do chamado Estado Novo. Ou seja, nasci em tempos de intolerância, perseguições, radicalismos e repressão contra os que lutavam por um Estado democrático de direito. Vivi em Teresina até os 12 anos, quando meus pais resolveram mudar-se para o Rio de Janeiro. Nessa cidade cursei escolas de ensino médio. Fiz o curso chamado clássico no Colégio Pedro II. Minhas primeiras lembranças de leitura são de um livro infantil que contava a história do touro Ferdinando, do autor norte-americano Munro Leaf, que havia sido editado no Brasil pela Melhoramentos, se não me engano. A história de um touro pacifista, que preferia flores à lide no picadeiro. Um livro russo de ficção científica – Sovietes em Marte, de Alexei Tolstoi. Uma antologia de textos literários, a célebre Crestomatia, de Radagásio Taborda. Não foram muitas as leituras nesse período.

2. Quando você teve acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Em 1953, quando fui admitido como mensageiro (office-boy) do Hospital dos Servidores do Estado (HSE), do antigo Instituto de Pensões e Aposentadoria dos Servidores do Estado (IPASE), no Rio de Janeiro. Logo no primeiro dia fui lotado na biblioteca, que era a melhor biblioteca médica hospitalar naquele momento. As memórias que tenho de lá permanecem muito fortes até hoje. Os oito anos em que ali trabalhei foram decisivos para tudo que fiz depois.

3. O que o motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

Não posso dizer que eu tenha feito uma escolha consciente. Foi um passo muito pragmático naquela etapa da vida. A bibliotecária do hospital (teria sido a Aída Furtado ou a Norma de Oliveira Lima, não me lembro com precisão) sugeriu-me que fizesse o exame de ingresso para o curso de biblioteconomia da Biblioteca Nacional, pois lhe parecia que eu demonstrava, no trabalho, ter jeito para a profissão. Aliás, ainda me lembro de uma frase que ouvi de um cirurgião, naqueles dias, quando ajudava no serviço da biblioteca: “The right man in the right place”. Mas somente fui me convencer que era possível sobreviver e constituir família, como bibliotecário, quatro anos depois de formado, quando fui selecionado para ser bibliotecário/editor do Centro Pan-Americano de Febre Aftosa, da Organização Pan-Americana da Saúde, em Duque de Caxias, RJ.

4. De que disciplina mais gostava quando era estudante?

Não havia uma disciplina da qual gostasse mais. Os professores não ajudavam muito, embora houvesse alguns luminares no curso. Como eu já trabalhava em biblioteca, muito daquilo era coisa sabida e que não merecia minha atenção. O curso era uma passagem obrigatória, mas que não me parecia uma opção definitiva. História do Livro era uma disciplina que me atraía, mas o professor, embora um importante intelectual, se limitava a ler num enorme caderno manuscrito suas anotações.

5. Com que tipo de biblioteca tem mais afinidade (escolar, pública, universitária, especializada, etc).

Por força de experiência de vida, minha afinidade maior foi com as bibliotecas especializadas, especialmente na área médica e de saúde. Em seguida, vêm as bibliotecas universitárias, principalmente por causa do período em que lecionei na Universidade de Brasília, quando acompanhei de perto a administração do professor Elton Volpini, que dirigiu a Biblioteca Central da UnB. Na ocasião aprendi muito sobre obras raras com o professor Rubens Borba de Moraes, que era meu colega de departamento, e que me ajudou a selecionar o núcleo inicial da atual coleção de obras raras da Biblioteca Central.

6. Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Já falei acima de como a carreira se iniciou até minha ida para o Centro Pan-Americano de Febre Aftosa. Em 1968, a convite do professor Edson Nery da Fonseca, eu e minha mulher viemos trabalhar na Universidade de Brasília. Vim lecionar na Faculdade de Biblioteconomia e Informação Científica, e ela, que também é bibliotecária, para dirigir a seção de periódicos da Biblioteca Central. Por duas vezes a Universidade de Brasília concedeu-me licença para trabalhar em outros órgãos, primeiro, no Ministério da Saúde, com a finalidade de organizar seu Centro de Documentação. Depois, no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), para ser seu diretor. Quando me aposentei, ocupava na Universidade de Brasília o cargo de diretor da Editora UnB. De 1956 até vir para Brasília fiz vários serviços avulsos de revisão de textos e tradução. E, depois de vir para Brasília, ministrei cursos e prestei algumas consultorias em outras instituições, como na Bireme.

7. Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Perguntar-se se tem aptidão, se tem interesse, se gosta da convivência humana, de interagir com as pessoas, de identificar aquilo que procuram, aquilo que precisam, e ajudá-las nesse processo. Se for alguém que quer ser bibliotecário porque “gosta de ler”, desaconselho a seguir a profissão. Além disso, essa pessoa precisará estar aberta ao mundo exterior, deve ser receptiva às mudanças ao mesmo tempo em que se preocupa com a história e a identidade cultural de seu país, de sua cidade, daquilo que constitui seu entorno de vida. Ser alguém voltado para a cultura em seu sentido mais amplo e que não vacile em se apropriar e dominar todas as ferramentas que facilitem seu diálogo com as pessoas que procuram e usam as bibliotecas. Alguém disposto a reconhecer, estudar e aplicar a força da língua falada e escrita na comunicação. Alguém que amplie ao máximo o domínio das línguas estrangeiras mais importantes.

8. Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Como disse acima, o fazer bibliotecário chegou-me antes do aprender bibliotecário. Logo percebi a importância da interação humana, do convívio onde ocorre uma troca de saberes, e da impermanência das técnicas. Um dos primeiros trabalhos de que me lembro na biblioteca do hospital, foi o de mudar nas fichas do catálogo a notação da Classificação Decimal de Dewey para a da National Library of Medicine. Notei também a inexistência de lacuna entre a produção de informações e sua organização e difusão. Que a biblioteca é parte dinâmica de um esquema maior, que ela não se esgota em si mesma nem pode viver desligada do mundo. E que o bibliotecário é muito mais um guia, um orientador e descobridor de conhecimentos – gosto muito da expressão “pastor de ideias” – do que um guardião, um custódio dos livros e outros recursos.

9. Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler? Justifique sua resposta.

Essa resposta “sou bibliotecário porque gosto de ler” é tão pueril, ingênua, quanto qualquer outra que confunda interesses pessoais com interesses coletivos. Se a resposta ainda fosse “quero ser bibliotecário porque gosto que TODOS possam ler”, seria razoável. Quem escolhe a biblioteconomia como profissão tem que gostar de estudar e ensinar, inclusive ensinar a ler. O gostar de ler é consequência do processo pelo qual o bibliotecário precisa se manter permanentemente ligado e atualizado com o mundo da cultura, dos saberes e das técnicas em seu sentido mais amplo. Se estiver numa biblioteca pública, onde haja grande demanda por obras literárias, a leitura que fizer delas será muito importante na prestação do serviço. Se for numa biblioteca especializada, a leitura das obras de atualização no campo respectivo, o tornará um profissional ainda mais útil e respeitado.

10. Qual a biblioteca mais fantástica que você já visitou e a que sonha ainda conhecer?

A do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Sonho conhecer a Bibliothèque Sainte-Geneviève, em Paris. Apesar de ter estado em Paris algumas vezes, até hoje não consegui visitá-la...

11. Dentre os tantos livros que você já leu, cite um e recomende.

Vidas secas, de Graciliano Ramos. Pela fusão magistral entre o drama humano e o meio em que se desenrola.

12. Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

É um contexto de crise e, portanto, de grandes promessas. Não se trata a meu ver, de uma ameaça a empregos, mas de uma ameaça à própria função social da biblioteca e do bibliotecário, que somente sobreviverão, numa escala de tempo de menos de uma geração, se se reinventarem. E os bibliotecários consequentemente terão de, ao se reinventar, procurar novas trilhas para percorrer como pastor de ideias. Detesto fazer futurologia, mas desconfio que as mudanças estão simplesmente começando.

13. Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade?

Em Brasília? Muito distante do que deveríamos ter como capital do país com uma população perto de três milhões de habitantes. Ou seja, uma situação muito ruim. Também na área das bibliotecas, Brasília foi moderna apenas no desenho e no discurso de seus criadores.

14. Há algum bibliotecário (a) que você considera fora de série?

Escolher entre os vivos é uma tarefa ingrata. Sei que há muitos. Entre os mortos fica mais fácil: Ramiz Galvão.

15. Do que mais gosta na sua profissão?

Da possibilidade de acompanhar o outro na descoberta de conhecimentos, ideias, saberes e visões de mundo, e da oportunidade de eu também poder fruir tudo isso.

16. Fique à vontade para fazer seus comentários finais.

Acho que não há mais nada a comentar. Mais tarde. Outro dia. Talvez...



Foto: Extraída da página do Facebook de Cristiane Marciel Pinheiro
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