CUBA...E BIBLIOTECAS


Este texto foi publicado originalmente na Revista Biblioo em 19 de setembro de 2013, com o título "Há bibliotecas e bibliotecários em Cuba, país acostumado em investir em educação e conhecimento". Discorre sobre impressões de minha visita em 2012 quando participei de um evento bibliotecário, em ação que me favoreceu conhecer pessoas, espaços públicos, ruas, praças, museus, bibliotecas e outros...
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Não pude resistir ao desejo de tratar sobre Cuba. A ideia tomou forma desde a leitura do artigo Vamos importar bibliotecários cubanos: o que os médicos cubanos têm a ver com os licenciados em Biblioteconomia?, publicado na Revista Biblioo, pelo colega Moreno Barros. Um artigo que suscita relevantes indagações sobre a demanda por bibliotecários no mercado de trabalho no Brasil.

Depois foi o texto Sobre médicos, bibliotecários, Cuba e Cubanos, da Bibliotecária Marielle de Moraes, publicado em seu blog Babel Informacional que ao apontar uma série de informações, destacava que:
Em Cuba, a partir da Revolução Cubana, foi criada em todas as escolas uma rede de bibliotecas, tentando atender aos objetivos da educação e insistindo na formação e desenvolvimento de uma cultura geral e integral do povo cubano. O desenvolvimento da prática da leitura nas crianças é um componente essencial da educação cubana e necessária para concretizar o que Fidel Castro afirmou na revolução: “Vamos fazer de Cuba o país mais culto do mundo.
Enquanto Moreno botava lenha na fogueira apontando a escassez de bibliotecários para atender o que propõe a Lei nº 12.244 de 24 de maio de 2010 – que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do país – seu pensando recaiu sobre as pequenas cidades, onde os bibliotecários formados nas capitais provavelmente não se interessariam por ocupar as possíveis vagas. Nesse sentido me pegava pensando fortemente nas cidades do interior do meu estado, o Amazonas, e não creio que muitos bibliotecários queiram deixar Manaus ou outras capitais do país para se aventurar a viver em cidades que impõe um ritmo de vida bem diferente, com distâncias consideráveis…

Ambos os textos abordam questões que tendem a instigar, provocar ou esclarecer e o elemento comum tem haver com este país que é alvo de críticas, preconceitos e desinformação, mas apesar de todas as dificuldades, tem favorecido seu povo com um sistema de saúde pública dos melhores do mundo e uma educação das mais bem sucedidas.

Então, objetivando contribuir com o que já foi dito, apresento de forma sucinta impressões do que vi em Havana quando participei em abril de 2012 do XII Congresso Internacional de Informação, organizado pelo Instituto de Informação Científica e Tecnológica (IDICTI) e Ministério da Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente da República de Cuba.

O evento reuniu bibliotecários de diferentes países que apresentaram trabalhos discutindo inclusive acesso aberto, redes e serviços de informação no século XXI, gerenciamento estratégico de Informação, etc. Apresentei trabalho e assisti algumas das palestras, mas confesso que o meu objetivo principal era conhecer bibliotecas e conversar com bibliotecários e neste sentido, o saldo foi muito positivo já que visitei seis bibliotecas, inclusive fora da área central de Havana, pois queria me certificar de que estes espaços estavam também presentes em áreas afastadas e com menor visibilidade. A constatação foi que sim, as bibliotecas estão presentes e em Havana elas estão por todos os lados.

Sobre bibliotecas em Cuba

Em meio à questão sobre médicos e bibliotecários cubanos, houve nos últimos dias quem questionasse a existência de cursos para formação de bibliotecários em Cuba. O texto de Marielle abarca muito bem a questão e por isso reproduzo aqui seu comentário:
Cuba tem escolas de Biblioteconomia, o dia do bibliotecário se comemora em 7 de junho e tem também associações profissionais. Cuba também tem a Biblioteca Nacional José Martí, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (com 415 bibliotecas presentes em todos os municípios), o Sistema Nacional de Bibliotecas Escolares, o Sistema Nacional de Bibliotecas Universitárias, o Sistema Nacional de Informação Científica e Tecnológica, os Sistemas Especiais de Bibliotecas e vários Centros de Documentação e Informação pelo país.
Para cotejar essas informações, recorri ao colega bibliotecário cubano Guillermo Ramon G. Junco que durante o Congresso Internacional (IDICTI) destacou em sua apresentação dados sobre o volume de bibliotecas existentes em seu país. Como fizemos amizade, e periodicamente contatamos por e-mail, solicitei a Guillermo um comentário sobre a questão ao qual ele destacou:
La Biblioteca nacional de Cuba Jose Marti atiende aun sistema de 412 Bibliotecas publicas incluyes las 16 bibliotecas de las provincias. Las de los municipios y la de sucursales. Pero en total son 412 Bibliotecas y La biblioteca nacional. Esto no quiere decir que las Bibliotecas Universitarias tiene una red en todas las universidades pero aquí no se cuantas hay y asi por instituciones. Mi red de bibliotecas son 16 y una que esta en el Polo cientyifico. Pero también el Ministerio de educación tiene una red en los pedagógicos, elos pre universitarios, en la secundarias básicas y en la primarias. Conocias como red de bibliotecas escolares y las de la universidad pertenenecen al red del Ministerio de educación Superior. Pero la cifra de la red de bibliotecas publicas son 412 que tengo en mi trabajo.
Há uma diferença insignificante quanto ao número de bibliotecas públicas apontadas, (415, 412 e até no site oficial da Biblioteca Nacional apresenta 411), contudo, as informações reforçam o compromisso do governo deste país com a educação que privilegia a cultura leitora por meio de bibliotecas extensiva a todos os seus municípios.

Algumas bibliotecas visitadas

Em vista da necessidade de participar das palestras do Congresso, o tempo foi curto durante a semana que passei em Havana e por isso pude conhecer apenas seis bibliotecas, infelizmente nenhuma biblioteca escolar ou universitária. Destas, tive o privilégio de visitar a Biblioteca Nacional de Cuba José Martí que é a depositária da produção intelectual do país, com atenção para os acervos documentais, bibliográficos, artísticos e sonoros.

A Biblioteca Nacional de Cuba é responsável também pela coordenação do sistema de bibliotecas públicas. Naquele período estava fechada para reforma, mas graças a Guillermo Ramon, pude conhecer suas dependências.

Biblioteca Nacional de Cuba

A maioria das bibliotecas em Havana ocupam edifícios históricos e a cidade possui também inúmeros museus, bem como praças muito bem arborizadas, onde é possível identificar estátuas que fazem alusão à leitura.

As imagens produzidas sobre Havana nos meios de comunicação apresentam geralmente o ideário de uma cidade parada no tempo com inúmeros casarões coloniais em estado de ruínas. Em Havana Vieja isso é bem verdade, contudo, todas as bibliotecas que visitei ocupavam bons espaços físicos, apesar da simplicidade dos equipamentos, mobiliários e acervos. Todas são geridas por bibliotecários e existe a figura do técnico em Biblioteconomia, que corresponde ao que seria para nós os cursos profissionalizantes, em nível médio.

Nas primeiras horas na cidade, passeando por Havana Vieja, rapidamente identifiquei a Biblioteca Cuba/México, que é uma espécie de sala de leitura, onde estão livros que podem ser lidos no local ou levados para empréstimo domiciliar. O interessante é que o espaço é compartilhado com uma livraria. O usuário escolhe a forma que mais lhe convém.

Interior de uma pequena biblioteca em Havana Vieja
O preço do livro em Cuba é muito acessível. Comprei vários exemplares de O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry, por um preço irrisório (infelizmente não recordo quanto). O papel e a encadernação não são de boa qualidade, mas o que se busca é favorecer acessibilidade por meio de baixos custos. Os livros comprados nas ruas chegam a ser mais caros que os das livrarias, pois na moeda cubana livros devem ser vendidos tanto para o nativo quanto para o turista pelo mesmo valor. Nas livrarias os valores são tabelados.

Mercado de livros usados em frente a Biblioteca Rubén Martínez Villena

Estive na Biblioteca Pública Municipal Máximo Gómes e a Biblioteca Pedagógica “Félix Varela” que possui acervo especializado e de caráter museológico, mas de todas, a que me encantou foi a Biblioteca Rubén Martínez Villena, pois é bonita, bem equipada e estava cheia de usuários. Possui excelente localização, em frente à Praça de Armas, onde há também uma grande feira de livros usados.

Biblioteca Rubén Martínez Villena

Biblioteca Rubén Martínez Villena

Biblioteca Rubén Martínez Villena

Biblioteca Rubén Martínez Villena

Biblioteca Rubén Martínez Villena

Além de conhecer as bibliotecas da capital, pensei que seria interessante ver pelo menos uma biblioteca municipal de uma área afastada. Para isso, precisei atravessar em desconfortável e quente embarcação rumo a Regla, pequeno município da Província de Havana. E valeu a pena, pois pude constatar que havia biblioteca e bibliotecária, havia também museu… e a biblioteca estava aberta e em funcionamento.

Biblioteca Municipal em Regla
Nem tudo são flores em Cuba e o país enfrenta inúmeros problemas. Um dos principais diz respeito à falta do direito de ir e vir. As pessoas são ávidas para saber como é do lado de “lá” e lá pode bem ser o Rio de Janeiro que povoa o imaginário, já que assistem as novelas da Globo, pode ser os Estados Unidos ou qualquer outro país que lhes permita viver nova experiências.

Moreno Barros encerra seu artigo que trata a possibilidade da importação de bibliotecários cubanos, fazendo a seguinte indagação: “O Brasil precisa de mais bibliotecas e bibliotecários?”

Eu acredito que o Brasil antes de qualquer coisa precisa investir em educação e criar oportunidades de acesso ao livro, à cultura e ao lazer. As bibliotecas (escolares e públicas) podem ser as portas de acesso nesse sentido, principalmente nas áreas mais afastadas do país. Mas é preciso planejar o que fazer para atender a demanda por profissionais com formação adequada para atuar em bibliotecas. E como fazer para que estes venham para fazer a diferença.


Desde que dei início ao Caçadores de Bibliotecas, apresento sempre imagens comprovando minha estada nos lugares visitados. A montagem acima aponta um emaranhado de registros de momentos vividos neste país. 
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