BIBLIOTECA PÚBLICA OU CENTRO CULTURAL - POUSO ALEGRE


Em janeiro de 2020 visitamos por segunda vez o município de Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais e claro, uma das motivações era poder usufruir novamente da Biblioteca Pública, que havíamos conhecido em janeiro de  2015 (VEJA POST) contudo, nos surpreendemos com mudanças das quais, de positivo, além de alguns murais pintados nas paredes internas, se destacavam nas noites da cidade, a iluminação natalina que deixava o antigo fórum em tons vermelhos.


Mas de negativo, constatamos algo que consideramos muito grave: a retirada da placa na área externa que identificava o edifício como Biblioteca Pública Municipal "Prisciliana Duarte de Almeida".

Conforme é possível observar na imagem abaixo, desde 30 de junho de 2017, o local passou a ser chamado de Centro Cultural Cleonice Bonillo Fernandes, fator que fez com que o ambiente da biblioteca municipal passasse a ser um item inserido no interior dessa estrutura.


Sobre a Biblioteca, na visita realizada em 2015 foram apresentadas várias considerações, dentre as quais a conquista do espaço privilegiado, junto a principal praça, no centro histórico da cidade, pois até então, a trajetória da biblioteca municipal de Pouso Alegre era de ocupações provisórias em espaços alugados.

Então de significativo, o que aconteceu ao ser categorizado o espaço como centro cultural?

Ganhou mobiliários? passou a desenvolver maiores atividades, promoveu a criação de serviços? Passou a atrair grandes públicos?

Não, infelizmente as mudanças não foram para melhor.


Visualmente as providências ocorreram em torno da criação de um espaço de auditório e 3 pequenas salas para exposição, também a introdução de um projeto de estímulo ao aprendizado do Esperanto (língua planejada), bem como a criação de imagens artísticas em algumas paredes.

Todas essas interferências poderiam ter sido realizadas em prol da biblioteca pública, sem a  retirada de sua identidade que ainda estava em processo de construção no atual endereço. 


Se faz necessário revelar a falta de visão e esclarecimento da prefeitura pela opção de remanejar acervos e concentrar a grande maioria apertados em salas da área térrea, sem buscar o entendimento sobre o que são de fato as bibliotecas públicas.

Deixo por aqui uma definição contida nas Diretrizes da IFLA/UNESCO sobre serviços da biblioteca Pública:
Uma biblioteca pública é uma organização criada, mantida e financiada pela comunidade, quer através da administração local, regional ou central, quer através de outra forma de organização comunitária. Disponibiliza acesso ao conhecimento, à informação, à aprendizagem ao longo da vida e a obras criativas, através de um leque alargado de recursos e serviços, estando disponível a todos os membros da comunidade independentemente de raça, nacionalidade, idade, gênero, religião, língua, deficiência, condição econômica e laboral e nível de escolaridade.
Deixo também o link para que tomem conhecimento sobre o MANIFESTO DA IFLA/UNESCO SOBRE BIBLIOTECAS PÚBLICAS.


Teria sido mais honrado por parte da Prefeitura que houvessem realizado investimentos no mobiliário da biblioteca, no acervo, na capacitação de funcionários, na criação de serviços. 


Todas as mudanças realizadas no interior da biblioteca municipal poderiam ter sido canalizadas para fazer ressurgir a Casa da Cultura Menotti Del Picchia (desativada), local que no passado funcionou como antiga estação ferroviária, mas que nos dias atuais tem cheiro nauseabundo e nenhuma atividade. Pouso Alegre também possui um TEATRO MUNICIPAL (VEJA POST nesse blog).


Não poderíamos deixar de expressar nossa decepção pois não encontramos lógica em desestabilizar uma biblioteca municipal quando a cidade possuía outros equipamentos culturais que precisavam ser revitalizados.


Observe nas imagens o edifício da antiga Estação Ferroviária inaugurado em 1895, tendo funcionado até 1983, quando foi desativado. Ainda nos anos 80, após ter sido reformado sob a responsabilidade do município,  passou a ocupar o status de Casa da Cultura.

O ambiente amplo, está localizado na mesma avenida onde está instalado o edifício da biblioteca municipal (centro cultural).


Durante estada na cidade, Peter Janzon e eu realizamos algumas tentativas de dialogar com a chefa, a superintendente cultural Regina Maria F. de Brito, mas ela estava sempre em reunião. Em conversa com seus colegas de trabalho, sobre a mudança do nome e da extração da placa de identificação da biblioteca, justificaram a existência de um documento que obrigava que o local fosse instalado como centro cultural e não como biblioteca pública. Pedimos para ter acesso ao documento, mas o pedido não foi atendido. Peter chegou a regressar ao local para solicitar o documento e foi mal tratado e praticamente convidado a se retirar da sala. Uma vergonha. 

Temos carinho muito especial por Pouso Alegre, Peter ainda mais, por ter amigos que o instigam voltar sempre. Ele, inclusive em 2015 descobriu no acervo da Biblioteca Municipal, a Coleção de livros dos Prêmios Nobel de Literatura, dispondo na coletânea da obra DE SAGA EM SAGA, da escritora sueca Selma Lagerlöf, primeira mulher a ganhar o Nobel de Literatura.

Deixo nas imagens abaixo, os registros de nossas passagens pelo espaço.

  

A Biblioteca Municipal de Pouso Alegre possui bom acervo, muitos oriundos de doação. Possui um dos melhores edifícios que encontramos nos municípios mineiros destinados à biblioteca municipal, além de dispor de pessoal que atua com entusiamo, a falta de visão porém, sobre o que fazer num ambiente de biblioteca gera perdas para os cidadãos que vivem sob a decisão deturpada de quem dirige atualmente o espaço.

Fotos: Soraia Magalhães e Peter Janzon
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2 comentários

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7 de abril de 2020 05:44 ×

É muito triste pensar que em quase 200 anos de Brasil o poder público continue a não entender o que seja a biblioteca. Até quando essa falta de visão continuará prejudicando as políticas públicas e a população? Essa falta de disponibilidade para o diálogo é ainda mais preocupante.

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7 de outubro de 2020 19:30 ×

Sim Samuel, você tocou no ponto certo. As pessoas não entendem o que é de fato uma biblioteca pública. Uma grande pena.

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