RAPHAEL S. CAVALCANTE: PROFISSÃO BIBLIOTECÁRIO



Hoje, no dia em que o Blog Caçadores de Bibliotecas completa 10 anos de atividades, tenho a honra de postar a entrevista de Raphael S. Cavalcante, sem dúvidas, um dos Bibliotecários mais respeitados da atual geração. Com desempenho significativo por seus posicionamentos engajados e humanistas da profissão, Raphael conseguiu reunir uma gama de profissionais que compartilham do mesmo ideal e tem fortalecido debates por meio da Liga Bibliotecária Bolivariana, que discute a Biblioteconomia com viés progressista. Ampliando os espaços para discussões, Raphael acaba de criar o Biblioteco Podcast (ele nos explica na entrevista sobre esse novo desafio). Em 2014, tive a oportunidade de encontrá-lo tête-à-tête e pude "caçar sua Biblioteca", além de conversar sobre temas diversos, creio que se estabeleceu entre nós, a partir daí um bonito elo de amizade. Acompanhe aqui um pouco de sua trajetória nessas linhas. 

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1 - Conte-nos onde nasceu, cresceu e como foi a sua relação com a leitura nos primeiros anos.

Eu nasci no Recife e lá vivi até os 10 anos. Em 1997, mudei para Brasília, tendo em vista a transferência do meu pai militar. Eu sempre tive livros por perto. Desde muito cedo, meu pai me levava para passear pelas livrarias do centro do Recife. E comprava livros para mim e para a minha irmã mais nova. Os meus pais também me municiavam de gibis, um hobby que cultivo até hoje. Na infância, também adorava a série Vaga-Lume, lia os exemplares que meus primos mais velhos tinham. Era aficionado pelos livros do Marcos Rey daquela coleção como “O mistério dos cinco estrelas” e “Um cadáver ouve rádio”. Felizmente, tive uma infância com muita leitura.

2 - Quando você tece acesso a uma biblioteca pela primeira vez?

Foi em 1996, no Colégio Adventista do Recife. Eu cursava a quinta série e estudei aquele ano no Adventista. A minha família não era adepta daquela região, nem eu, mas a mensalidade cabia no orçamento. E eles tinham uma biblioteca. Havia uma jovem bibliotecária lá, ela me indicava livros da Coleção Vaga-Lume e outros infanto-juvenis. Foi o meu último ano no Recife.

3 - O que lhe motivou a escolher o curso de Biblioteconomia?

No Ensino Médio, eu participava do Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília, uma espécie de vestibular parcelado, com provas ao final de cada ano. No terceiro ano, eu já tinha acumulado boas pontuações para o ingresso em cursos cuja nota de corte não eram altas. Biblioteconomia estava entre eles. Conversando com uma professora, a Hipácia, que tinha conhecidos bibliotecários, ela me disse ser uma carreira promissora com a possibilidade de ingresso no serviço público. Então, por afinidade, eliminei as outras alternativas como Agronomia e Letras, optando por Biblioteconomia.

4 - Que disciplina mais gostava quando era estudante?

Sem dúvida, as disciplinas de Indexação e Linguagens Documentárias. A representação da informação me fascinava, esse lance de sintetizar o conteúdo de documentos e torná-los recuperáveis. Também ajudava o fato das disciplinas serem ministradas pela professora Marisa Brascher, profissional ímpar.

5 - Que tipo de biblioteca tem mais afinidade?

Eu penso que a biblioteca pública é a biblioteca por excelência, se pensarmos em bibliotecas como locais possíveis de emancipação dos sujeitos, a partir da democratização do acesso à leitura, do acesso à informação. Tenho extrema admiração pelas bibliotecas públicas, considerando todas as suas possibilidades.

6 - Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional.

Estagiei nas bibliotecas do Banco Central, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e do Colégio Marista de Brasília. Tive mais autonomia nesta última e ali comecei a refletir sobre gestão de unidades de informação. Em 2006, enquanto ainda cursava a graduação de Biblioteconomia, fui nomeado como técnico administrativo na Secretaria de Planejamento do Governo do Distrito Federal. Trabalhei no GDF por 3 anos e meio, em área administrativa. Em 2009, finalmente, tive o meu primeiro emprego como bibliotecário na Agência Nacional de Telecomunicações. Foi muito desafiador, devido à minha pouca idade e a dificuldade de lidar com os gestores, profissionais que não eram da área de informação. Em 2011, fui chamado no concurso da Câmara dos Deputados, local onde atuo até hoje. Há 5 anos, sou responsável pela área de produtos informacionais e gestão de redes sociais da Biblioteca da Câmara. Entre 2010 e 2012, cursei o Mestrado em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília.

7 - Que conselho daria para uma pessoa que deseja seguir a carreira bibliotecária?

Politize-se. No Brasil, o exercício da Biblioteconomia está intrinsecamente ligado a políticas públicas. O Estado segue como um dos principais empregadores. Conhecer políticas públicas é deveras importante para o exercício profissional, uma vez que o acesso à leitura está longe de ser universalizado. Além disso, a Biblioteconomia é um campo ligado à Educação, que segue com um dos grandes desafios brasileiros. Futuros bibliotecários têm que ter consciência do papel do Estado.

8 - Em que momento você desmistificou o fazer bibliotecário, haja vista que a maioria das pessoas ingressa na universidade acreditando que o ambiente de trabalho está condicionado somente a livros e espaços de bibliotecas?

Desde a graduação. O meu trabalho de conclusão de curso, por exemplo, foi voltado para a análise das taxonomias de sites de comércio eletrônico. No entanto, reconheço que as bibliotecas ainda seguem como as grandes empregadoras de bibliotecários. Penso que as habilidades que adquirimos podem ir muito além desses espaços. Mas não se trata de um trabalho fácil e a necessidade de ter que se provar é muito cansativo.

9 - Você acha que uma pessoa que escolhe essa profissão tem que gostar de ler?

Mais do que gostar de ler, o profissional bibliotecário tem que está apto à leitura crítica. Lidamos com fontes de informação. Se temos em nossos acervos obras como a do influenciador Olavo de Carvalho, temos que ter a noção de que desprezam conhecimento científico e insuflam teorias conspiratórias. Para isto, é preciso ler a respeito, tirar conclusões, domar as paixões. A criticidade é ferramenta indispensável para o profissional bibliotecário. Não é suficiente apenas a leitura, mas a depuração do que se ler.

10 - Qual a Biblioteca mais fantástica que já visitou e a que sonha ainda conhecer?

A mais fantástica foi a Biblioteca Carolina Maria de Jesus do Acampamento Povo Sem Medo, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, em São Bernardo do Campo, em 2018. Participei inclusive da organização do espaço, na mais emocionante experiência humana que já tive. O carinho, o senso de importância que a comunidade atribuía à biblioteca eram comoventes. A biblioteca ocupava espaço central no acampamento. Sonho em conhecer a próxima por vir. Aliás, se tem uma coisa que aprendi com o projeto Caçadores de Biblioteca é que cada espaço tem seu charme, sua importância.

11 - Dentre os livros que você já leu, cite um e recomende.

Em abril de 2020, os Estado Unidos estão no epicentro da pandemia por coronavírus. Muitos dizem que isso tem a ver com o fato daquele país não possuir uma estrutura de saúde pública acessível e gratuita para toda a população. A verdade é que a maior economia do mundo está longe de ser o paraíso capitalista no mundo. Não existe paraíso no capitalismo. Neste sentido, quero recomendar o clássico americano “As vinhas da ira”, de John Steinbeck, que narra as agruras de uma família de pequenos agricultores em meio à Grande Depressão americana. Endividados, perdem as terras para o banco, sendo obrigados a migrarem para a Califórnia e a passar toda sorte de flagelos. Trata-se de um livro com quase oitenta anos com questões atualíssimas.

12 - Qual sua opinião sobre o contexto atual da profissão?

Não são tempos fáceis para o exercício da profissão. Desde o Golpe de 2016, o Brasil adentrou numa onda neoliberal que vem limitando gastos em áreas como Educação e Saúde. Isto afeta diretamente as bibliotecas que dependem diretamente do Estado, que não podem sequer contratar novos profissionais via concurso público e, por vezes, abrem espaço para a terceirização, via de regra, com remuneração precária. A reforma trabalhista também dificultou bastante a vida dos trabalhadores da iniciativa privada. A regulamentação da pejotização faz com que jovens bibliotecários se submetam a salários indecentes de 1200, 1500 reais. É muito pouco diante do que foi despendido com a formação.

13 - Como você vê a atuação da biblioteca pública de sua cidade?

No Distrito Federal, temos cerca de 30 bibliotecas para uma população de mais de 3 milhões de habitantes. É um número muito aquém do ideal. Também não possuem o número adequado de profissionais bibliotecários. No entanto, muitas realizam trabalhos fantásticos como as bibliotecas públicas de Taguatinga e Ceilândia. Destaco também a Biblioteca Nacional de Brasília, que, nos últimos anos, tem feito um trabalho muito relevante junto à comunidade. Mas, infelizmente, as bibliotecas públicas não são prioridades do governo do DF.

14 - Há alguma bibliotecária(o) que você considera fora de série?
Inúmeros profissionais! Vou destacar às bibliotecárias do coletivo Liga Bibliotecária do qual faço parte: Andreia Sousa Santos, Cida Fernandez, Franciéle Garcez, Gilvanedja Mendes, Hevellin Estrela e Patricia Pimenta. São mulheres fenomenais que me ensinam como ser um bibliotecário melhor a cada dia.

15 - Do que mais gosta na profissão?

De gente, de lidar com os usuários, de lhe ser útil. Acho que o exercício da Biblioteconomia foi algo extremamente importante para a minha consolidação de profissional humanista e de esquerda. Pude aprender sobre as carências brasileiras e ter imbuído o dever de fazer a diferença, inclusive enquanto servidor público.

16 - Conte sobre seu projeto Biblioteco Podcast. No que consiste, que objetiva?

O Biblioteco foi uma consequência da atuação da Liga Bibliotecária. Eu queria algo que trouxesse a público discussões que tínhamos no âmbito privado. E então veio a ideia do podcast, que nada mais é do que um programa gravado em áudio. Gestei durante anos, até que me deparei com o editor Allan Tolentino, de São Paulo, e julguei ter chegado a hora. De lambuja, ainda me deparei com parceiros incríveis que constroem comigo o programa, os bibliotecários Ricardo Queiroz e Luciana Kramer Müller. Temos o objetivo de ajudar na politização da classe bibliotecária, de trazer reflexões, sem esconder o fato de que somos assumidamente de esquerda. Não vamos enrolar ninguém. E assim perpassamos por temas ligados diretamente à Biblioteconomia e à Ciência da Informação, abertos a questões diversas, tendo em vista a interdisciplinaridade das áreas.

Outro grande objetivo do Biblioteco é abrir espaço para bibliotecários dos mais diversos cantos do país, cedendo espaço para que demonstrem os seus trabalhos. A Biblioteconomia brasileira tem muita gente de talento, mas que nem sempre tem o destaque merecido.

O Biblioteco está disponível nas principais plataformas de podcast, com periodicidade semanal. Temos também um perfil no Instagram: @biblioteco.podcast

17 - Comentários finais

Quero agradecer a honra de fazer parte das comemorações de uma década deste projeto lindo, liderado por uma pessoa que muito admiro. Já tive a oportunidade de contribuir com os Caçadores, mas quero fazer mais. O trabalho de Soraia nos dá orgulho, é literalmente uma janela para a diversidade brasileira e para o mundo. Uma declaração de amor às biblioteca. Parabéns!


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2 comentários

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José Rosa
admin
12 de abril de 2020 11:35 ×

Amiga Soraia.
Parabéns pela matéria, mas sobretudo, pelo teu Blogue que me inspira.
Continua, por muitos e muitos anos.
Parabéns.

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13 de abril de 2020 12:46 ×

Gostei muito de ter lido essa entrevista, pois fala de um profissional engajado, crítico. Saúdo o projeto Caçadores de Bibliotecas e também o Biblioteco. Como escritor e narrador de histórias, eu tenho contato com várias pessoas da biblioteconomia. Vou indicar está entrevista. Um abraço!

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